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Moradores mostram outra Cova da Moura

por

PATRÍCIA JESUS (Texto)

RODRIGO CABRITA (Foto)  

Bom dia!, diz Bebucho aos que todas as manhãs saem da Cova da Moura para ganhar a vida. Ainda não começou a clarear, mas a jornada começa cedo, por volta das cinco, seis da manhã e Bebucho quis mostrar que a Cova da Moura é igual aos outros bairros: "Há pessoas honestas e trabalhadoras que saem de manhã para trabalhar." O servente, de 23 anos, fez o workshop da produtora Até ao Fim do Mundo porque "teve um tempo parado". As aulas começaram em Outubro e duraram três meses. Quinze chegaram ao fim com um documentário para mostrar, um filme sobre a comunidade, que tiveram oportunidade de mostrar ontem ao bairro, com o bónus de terem Catarina Furtado como anfitriã do evento.

Vestida de gala, "porque um evento na Cova da Moura é igual a um espectáculo noutro sítio qualquer", num palco montado no meio do bairro, a apresentadora entrevistou os realizadores, introduziu os documentários, dançou com um dos jovens autores e encantou a dona Juvita, que ia preparando cachupa numa mesa por perto. "Um programa destes tem a capacidade de intervir na sociedade. É de facto serviço público quando se mostra o que de bom aqui se faz, sem tentar branquear o que há de mau", diz a apresentadora da RTP, que faz questão de salientar que toda a equipa foi muito bem tratada e que foram as próprias pessoas da Cova da Moura a tratar da segurança do evento. Mas o que é importante, conclui, é a mensagem dos documentários: "Positiva, importante para desmistificar ideias feitas."

Os documentários são o resultado de um workshop de televisão, onde lhes foi ensinado como fazer reportagens e como filmar. Depois, era com eles: escolher o tema, filmar, fazer as entrevistas. Armados com uma câmara saíram para a rua para tentar mostrar outras facetas da Cova da Moura. No documentário de Bebucho nem sequer há muitas palavras além do bom dia que oferece aos que saem apressados, mas a mensagem passa.

Stef, Strike e KDG estão habituados a fazer passar a mensagem através do hip-hop. Em português ou em crioulo, estes MC (mestre-de-cerimónias) da Cova da Moura usam a música para falar do que se passa no bairro. Já chegaram tarde ao workshop, porque todos têm empregos e era difícil cumprir os horários, mas o tema foi óbvio desde o início: o hip-hop é música de intervenção e em Kova Hop(e) é também a voz da esperança.

De esperança falam também o Bino, o Jackson e o Luís. Em De cabeça erguida entrevistaram vizinhos que passaram pela prisão e conseguiram refazer a vida. Os três sabem, porque são muitos os casos que conhecem na comunidade, como é difícil recomeçar. "Foi fácil falar com eles porque são nossos amigos de infância, havia confiança para falar de experiências difíceis", dizem.


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