por
FRANCISCO ALMEIDA LEITE
LEONARDO NEGRÃO
"Não esperem de mim uma campanha com espectáculo que não sei fazer. Não esperem de mim o uso de grandes meios, de que, de resto, não disponho, nem penso serem desejáveis." Esta foi uma das frases mais fortes do discurso de apresentação da candidatura à liderança do PSD, lido ontem duas vezes por Manuela Ferreira Leite. Uma vez dentro da sala onde normalmente se realizam as reuniões da direcção do partido (porque a sala das conferências de imprensa era pequena para o efeito), outra vez no exterior, supostamente para os militantes que não conseguiram entrar.
Manuela Ferreira Leite leu duas vezes o mesmo discurso, sem alterar uma vírgula, nem fazer um acrescento. Nunca improvisou. E esta, está visto, não será uma campanha de improvisos. A antiga ministra das Finanças começou por avisar os jornalistas, através dos assessores do partido, de que não haveria lugar a perguntas a seguir ao discurso. E assim foi. Manuela discursou duas vezes, deu um beijinho aos notáveis e dois aos militantes das bases. Depois saiu, volante do seu próprio carro, uma station wagon BMW.
Do discurso da ex-ministra, algumas notas relevantes a reter. Ferreira Leite considerou que "esta foi, talvez, a decisão política mais difícil" que tomou até hoje e justificou a sua candidatura porque muitos militantes lhe manifestaram "a sua profunda apreensão quanto às crescentes dificuldades e instabilidade sentidas no PSD". Segundo a ex-presidente da mesa do congresso do partido, "havia uma marca comum a todos: o desânimo, a descrença e a falta de esperança". Descrevendo ainda o actual estado do PSD em traços muito sombrios, Ferreira Leite sublinhou que o partido está "abalado nos seus alicerces e a perder o seu crédito junto da opinião pública".
Sob o lema "Manuela Ferreira Leite, Por Portugal, Pelo PSD", a candidata usou e abusou da palavra credibilidade e de quase todos os seus sinónimos. "Quando nos chocamos com manifestações de autoritarismo e mesmo de intimidação que o PS vem revelando, tal só é possível porque o PSD não tem força para as travar ou dissuadir", disse.
Num exercício mortífero para as últimas lideranças do PSD, sobretudo as de Luís Filipe Menezes (que durou seis meses) e a de Luís Marques Mendes (que durou dois anos e meio), a candidata atirou a matar. "A questão que mais nos deve preocupar, a que é verdadeiramente grave, é o facto de se constatar que perdemos a credibilidade que sempre nos acompanhou no poder ou fora dele", afirmou. E para rematar: "Incomoda-me e muito a falta de respeito com que começam a tratar-nos."
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