por
MARIA JOÃO PINTO
Galeria cheia na abertura da mostra de homenagem a José Saramago
"Se há algo absolutamente precioso", "obra de todos", esse algo "é a língua portuguesa". Como "responsáveis pelo seu destino", "temos a obrigação de a trabalhar mais e melhor" - sempre que a falamos, sempre que escrevemos, porque sem ela "não somos nada ou muito pouco". Foi com a defesa da identidade que a língua confere que José Saramago terminou ontem a sua intervenção na inauguração oficial d'A Consistência dos Sonhos, mostra de carácter intimista que o Palácio Nacional da Ajuda (PNA) manterá patente até ao dia 27 de Julho, na Galeria de Pintura do Rei D. Luís.
Galeria que foi pequena para acomodar as largas centenas de pessoas, entre figuras públicas e cidadãos anónimos, que a ela assistiram. Com um agradecimento especial a Fernando Gómez Aguilera, comissário da exposição, e a Pilar del Río, sua mulher, por terem sido eles os impulsionadores de Consistência dos Sonhos, o escritor explicaria por que razão, ao invés de dizer apenas "obrigado a toda a gente", preferiu sublinhar esse agradecimento com um muito nosso "obrigadinho". É que este, frisou, "sai mais do coração".
Confessando-se dividido quanto à "atitude a tomar perante esta exposição" - "orgulho?, falsa modéstia?, emoção?, contemplação?" -, Saramago acabaria por transformar este tributo que lhe era dirigido num tributo amplo ao que temos de "mais precioso": a língua que nos une e nos permite "fazer com ela laços e relações". Algo que, no seu caso pessoal, mais precioso se tornou com a distância: "Com esta minha vida em Lanzarote", disse Saramago, "descobri que a língua portuguesa é a mais formosa do mundo", como já antes, lembrou, outros o haviam feito, entre eles, Camões, Vieira e Eça.
Palavras de agradecimento foram também as do primeiro-ministro, José Sócrates, em "reconhecimento por tudo" o que o escritor "tem feito em prol do prestígio da Língua Portuguesa e em prol do País": "Quero que ele saiba que gostamos dele, que o estimamos e temos muito orgulho em tudo o que fez pela língua portuguesa e por Portugal", disse. Sublinhando que "é com homens de espírito nobre que se constrói um país melhor", Sócrates citaria ainda Pessoa e o seu "para ser grande, sê inteiro", que Saramago elegeu, ainda jovem, como divisa para a vida.
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