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Ana Sá Lopes Enviada especial a Maputo
Cavaco Silva só recordou o passado feliz vivido em meados dos anos 60
Era uma vez um alferes e um carro em segunda mão. Mobilizado em Lourenço Marques em 1963, Aníbal Cavaco Silva comprou um automóvel por 22 contos com um empréstimo do Montepio Geral e "desbravou África". A história comum que o Presidente da República ontem quis recordar, no primeiro dia da visita oficial a Moçambique, foi a do "jovem alferes recém-casado que, há muitos anos, teve a ousadia de, com poucos recursos, comprar um automóvel para conhecer uma terra que logo o fascinou", exemplo que aconselhou os investidores portugueses a seguir.
Construir um novo ciclo, para o Presidente da República, não implica pedir desculpas pelos massacres da guerra colonial, como o de Wiriamu (massacre de uma aldeia moçambicana pelas tropas portuguesas em 1971, denunciado internacionalmente por missionários dois anos mais tarde). A pergunta, feita na conferência de imprensa conjunta de Cavaco Silva e Armando Guebuza, é respondida com uma expressão vaga: "A História é feita pelos homens todos os dias, com os seus defeitos e virtudes". Na História, segundo Cavaco, "encontramos sempre aspectos positivos e negativos". Não devemos "ficar sempre a olhar para o passado". "O que fizemos sempre foi olhar para o futuro". "Estamos a percorrer um caminho".
O Presidente da República também esteve na guerra, colocado em Lourenço Marques com funções administrativas. Este é o testemunho do antigo alferes, ontem, ao lado do antigo combatente pela independência Armando Emílio Guebuza: "Eu que estive aqui nesse tempo, vim aqui em meados dos anos 60, apesar de já haver alguma instabilidade, nem isso me levou a ficar preso em Maputo. Agarrei num carro e desbravei África". A mensagem do carro em segunda mão comprado por um casal com poucos recursos para "desbravar África" precede uma outra: deve-se, segundo o Presidente, "olhar para o futuro com confiança e optimismo".
Há um gosto particular de Cavaco Silva pelas imagens com automóveis. Mais de 20 anos depois de ter decidido aparecer num congresso do PSD porque precisava de fazer a rodagem de um Citröen novinho em folha (segundo as palavras do próprio convertidas em mitologia), o carro em segunda mão comprado em Lourenço Marques nos anos 60 foi ontem elevado a significante semi-emocional, semi-empresarial, no primeiro dia da visita de Estado a Moçambique.
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