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Maior crise pós-II Guerra gera novo "minicrash"

por

PEDRO FERREIRA ESTEVES  

Falta de visibilidade sobre extensão da crise limita opções

Os últimos dois dias nas bolsas mundiais não foram muito diferentes daqueles que se viveram no início de Setembro ano passado ou em Janeiro deste ano: investidores a fugirem das bolsas à procura de refúgio depois de conhecidos novos efeitos da crise hipotecária nos EUA, num ambiente de dólar fraco e matérias-primas em máximos históricos. O que torna os acontecimentos recentes mais graves é o efeito de acumulação que, se se prolongar durante mais tempo, põe em causa a economia real. O ex-presidente da Reserva Federal (Fed) dos EUA considera mesmo que este é a pior crise após a II Guerra.

A notícia que levou as bolsas europeias e asiáticas a perderem ontem entre 3% e 4% - a Bolsa de Lisboa recuou 3,5% e já contabiliza uma perda anual de 25% foi a compra do quinto maior banco de investimento dos EUA, o Bear Sterns, a preço de saldo (dois dólares por acção, apenas 1,2% do seu valor de mercado há ano e meio) pelo rival JP Morgan. Uma consequência de incapacidade do Bear Sterns em cumprir com as responsabilidades assumidas, depois das perdas sofridas nos seus activos de crédito. Esta notícia foi mais um efeito da extensão dos problemas provocados pela crise do crédito hipotecário de alto risco nos EUA (subprime), que já antes havia afectado o britânico Northern Rock (falido e recuperado pelo Governo britânico), os gigantes Citigroup e Merrill Lynch ou os europeus BNP Paribas ou UBS.

Todos estes bancos tiveram de pôr dinheiro de parte para cobrir a deterioração do valor dos investimentos indirectos no subprime. E nalguns casos, só a intervenção dos fundos soberanos (estatais) do Médio Oriente conseguiu salvá-los. Entretanto, os bancos centrais, em particular a Fed, tem actuado de forma a disponibilizar aos bancos facilidades de financiamento. Também no último fim-de-semana, a Fed baixou as taxas de juro de desconto para 3,25%, o indicador que fixa o que pagam os bancos para se financiarem directamente junto do banco central. E os analistas esperam que, já hoje, a Fed prolongue a descida das taxas de juro normais dos actuais 3% para 2%, como forma de travar o efeito da crise financeira na economia real. Estas medidas tem sido acompanhadas, nos EUA e Europa, com injecções de liquidez no mercado interbancário, de forma a atenuar o congelamento dos empréstimos que os bancos fazem entre si. Contudo, parte dessa liquidez não circula porque existe enorme falta de confiança para investir.

O que torna a actual crise tão original e imprevisível é a falta de visibilidade do problema. Até ao momento, já foram anunciadas perdas relacionadas com o subprime (directamente ou através de veículos de investimento associados) na ordem dos 127 mil milhões de euros, mas existem estimativas que apontam para que essas perdas cheguem aos 500 mil milhões.


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