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QUANDO O JORNALISMO SE CRUZA COM OS AFECTOS

por

Mário Bettencourt Resendes

provedor@dn.pt  

Fernanda Câncio pertence aos quadros redactoriais do DN e é, além disso, titular de uma coluna semanal de opinião nas páginas do jornal e de outra na Notícias Magazine, a revista que acompanha as edições de domingo do DN e do JN.

Num dos seus recentes artigos, publicados às sextas-feiras, a jornalista criticava, com a contundência e desassombro que fazem parte da sua "imagem de marca", uma intervenção pública de Pedro Santana Lopes. O texto suscitou um número razoável de protestos de leitores, dirigidos ao provedor, defendendo que Fernanda Câncio, por motivos relacionados com a sua "vida pessoal", se deveria abster de criticar um dirigente da oposição.

O provedor pouco dirá sobre a "questão concreta". Primeiro, porque, de acordo com o estatuto das suas competências, não lhe cabe pronunciar-se sobre o conteúdo de artigos de opinião, a não ser em casos absolutamente excepcionais; depois, porque nada sabe - nem está interessado, nem lhe cabe saber... - sobre a vida pessoal da jornalista, salvo duas ou três pseudo-reportagens especulativas que não são bons exemplos de jornalismo credível. A verdade é que a jornalista sempre resguardou a sua vida pessoal com um cuidado assinalável, merecendo, pois, que essa reserva seja respeitada. E, portanto, daqui deriva que não faz qualquer sentido pretender que Fernanda Câncio se abstenha de opinar sobre o que quer que seja: fá-lo há muito tempo, num registo muitas vezes polémico e há que reconhecer que sempre evidenciou independência de espírito. O provedor conhece a personalidade e o currículo da jornalista o suficiente para afirmar que é um completo absurdo pensar que Fernanda Câncio se resignasse a ser porta-voz de ideias que não sejam as suas.

A "questão concreta" remete, mesmo assim, para uma temática que, essa sim, merece reflexão no âmbito da análise do discurso dos media e que, por sinal, alimentou já animadas controvérsias noutros países: as relações familiares ou pessoais de um jornalistas devem, em alguma medida, condicionar o seu comportamento profissional?

Foram solicitados comentários - publicados na íntegra noutro local desta página - a Fernanda Câncio, a Ricardo Costa, jornalista/comentador político da SIC e irmão do actual presidente da Câmara de Lisboa, e a Judite de Sousa, actual directora adjunta e entrevistadora de primeiro plano da RTP, casada com o presidente da Câmara de Sintra e figura destacada do PSD, Fernando Seara.


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