por
Manuel Queiroz
jornalista
Um artigo do ministro dos Negócios Estrangeiros David Miliband pode bem ser uma nova facada na autoridade do primeiro-ministro Gordon Brown, por muito que o próprio Miliband ontem tenha dito que não, que era para levantar o moral dos trabalhistas. Mas depois da derrota na eleição intercalar de Glasgow da semana passada, "as probabilidades hoje são contra nós", pelo que é necessário uma mudança.
"Miliband intervém: Trabalhistas têm que mudar e têm que mudar já" - eis a manchete do Guardian, jornal londrino sempre próximo do partido actualmente no Governo, em que analisa as implicações do próprio artigo publicado dentro e que tem o título "Contra todas as previsões, ainda podemos ganhar com uma plataforma para a mudança". Em quase mil palavras, o jovem Miliband, 43 anos, não escreve uma única vez o nome de Gordon Brown e não o critica de forma directa. Mas diz que já se devia ter reformado o Serviço Nacional de Saúde e que o Governo deve devolver poder aos cidadãos, críticas que têm sido feitas ao primeiro-ministro. Diz que o partido não precisa "de passar o Verão numa introspecção" e pretende afastar o "fatalismo" que grassa no partido. Mas na situação actual, com muitos deputados já a pedirem a cabeça do primeiro-ministro, a intervenção de Miliband só pode ser vista como uma forma de se posicionar para uma corrida à liderança que parece cada vez mais inevitável e em que há mais candidatos. É mesmo essa a conclusão do The Times na sua manchete: "Miliband posiciona-se para a liderança" - o artigo só foi publicado ontem no Guardian, mas na Inglaterra as primeiras edições dos jornais saem muito cedo e, de qualquer modo, as agências já tinham antecipado algumas passagens do artigo. "Miliband aumenta pressão sobre Brown", diz na capa, embora em local discreto, o Telegraph. Setembro será um mês decisivo - ou Brown consegue fazer uma remodelação do Governo e criar uma nova dinâmica, ou então será obrigado a aceitar um digno lugar internacional (provavelmente ligado ao desenvolvimento africano) para deixar o partido e o Governo a outros e tentar salvar o salvável.
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