por
Eurico de Barros
jornalista
Quando Tim Burton trouxe Batman para o cinema como ele merecia, fê-lo mantendo-se fiel ao espírito da criação de Bob Kane, mas instilou-lhe a sua marca de poesia lúgubre, sensibilidade "gótica", fantasia visual sombria e sentido de humor com calafrios. Sucedendo a Burton, Joel Schumacher pegou na série e acabou por arrastá-la para o território do camp e do carnavalesco, estragando, pelo espalhafato, tudo o que Burton havia feito bem. Com o inglês Christopher Nolan agora a comandar, a franchise entrou em modo pós-heróico e, como tanto se gosta agora de dizer, dark (significando "trevas morais" mas também abundância de sequências filmadas em lugares escuros ).
Em O Cavaleiro das Trevas (estreia-se amanhã), segundo filme da sua vigência, Nolan, que assinou o argumento com o seu irmão Jonathan, leva ao extremo tudo aquilo que havia exposto em Batman - O Início, e insiste ainda mais na simplificação dramática das personagens e na acção hiperviolenta, desmesurada, ensurdecedora e incoerente que se tornou no pão com manteiga dos blockbusters de Hollywood. Até mesmo dos que armam ao pingarelho de "existenciais" e "angustiados", como é o caso.
Tendo Christian Bale de novo encafuado na carapaça negra de Batman, agora equipado com uma voz à Darth Vader para não ser reconhecido, e o falecido Heath Ledger num Joker sociopata terminal que parece o palhaço Bozo interpretado por Marlon Brando depois de uma noite de estúrdia brava numa casa de meninas, O Cavaleiro das Trevas deleita-se, com vasta pose de solenidade pretensiosa, na depreciação do conceito de herói iniciada pelos comics e prosseguida pelo cinema, num niilismo "pós 11/9" de tostão a dúzia, e num relativismo moral para consumo de cábula de Filosofia (a coisa de Batman ser a imagem de espelho do Joker, e por aí adiante). Pelo meio, Nolan empilha sequências de acção sofisticadíssimas e estilhaçadoras de tímpanos, que tornam o filme numa agitada sucessão de clímaxes e golpes de rins narrativos de enredo de cordel, ameaçando nunca mais acabar.
O Cavaleiro das Trevas leva-se tão escancaradamente a sério, e trabalha tanto para descaracterizar, apoucar e marginalizar o Homem-Morcego, que quase que dá vontade de perdoar a Joel Schumacher por ter levado Batman para Las Vegas. |
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