por
ANA SÁ LOPES
VASCO NEVES-ARQUIVO DN
PCP. Segundo o discurso oficial, o PCP "não subscreve os métodos das FARC". Mas basta uma volta pela imprensa do partido para ver a guerrilha colombiana glorificada por oposição ao regime "protofascista" de Uribe. A propaganda pró-FARC não precisa da Festa do Avante! para andar por aí
"É totalmente falso" que Ingrid Betancourt "queira os seus filhos, quase nunca os via". Ela queria "qualquer coisa menos ser mãe, dedicar-se ao seu lar asfixiava-a e diminuía-a. (...) Nunca cuidou deles, nunca lhes trocou uma fralda, nunca lhes deu um biberão. Não tinha tempo para isso nem queria". Quem escreve assim é um intelectual venezuelano chamado José Sant Roz e o texto, com o título "Retrato de uma mulher de elite", foi publicado em Portugal no dia 4 deste mês, no Resistir.info, um site ligado ao PCP, fundado por Miguel Urbano Rodrigues, onde escrevem nomes como o economista Eugénio Rosa ou Jorge Figueiredo.
José Sant Roz acredita que Ingrid tenha sido sequestrada pelas FARC, mas duvida de quase tudo o resto: "Agora, quando a vemos tão fresca e tão doce, tão alegre e cheia de vida, como se compatibiliza isto com aquelas expressões das suas cartas comovedoras à sua mãe? (...). Encenava. Equivocou-se na sua verdadeira vocação: a de actriz de telenovelas."
Na sua última edição, o Avante!, órgão oficial do Partido Comunista , não ridiculariza Ingrid Betancourt, mas insurge-se contra "o terrorismo mediático [que] generalizou uma realidade falsa da realidade colombiana", já que "em Portugal reina a ignorância sobre o que de facto aí se passa". Segundo o militante Manuel Gouveia, "afirmações tão estruturantes e verdadeiras como que quem é narcotraficante na Colômbia é o Presidente Uribe ou que, no conflito colombiano, a oligarquia sempre promoveu a guerra e as FARC sempre procuraram soluções pacíficas, suscitam dúvidas e resistências cuja superação exige um espaço de debate e esclarecimento, espaço que não existe fora do partido".
Anabela Fino, colunista habitual do Avante!, rejeita a classificação "terrorista" para designar as FARC, num texto apologético da guerrilha colombiana: "Na Colômbia, como na Palestina, Líbano, Iraque, ou como no passado recente no Vietname, em Cuba, Nicarágua, El Salvador, África do Sul, só para citar alguns exemplos, 'terroristas' são todos os que não se vergam ao despotismo, ao colonialismo, à escravidão, seja qual for o nome ostentado pelo regime que o pratica." Para a colunista, "a verdade, porém, é que na Colômbia, onde as FARC lutam há mais de quatro décadas contra regimes corruptos e despóticos, serventuários do imperialismo norte-americano, os autênticos terroristas usam fato e gravata e incumbem o exército ou organizações paramilitares de lhes fazer o trabalho sujo, enquanto debitam nas Nações Unidas, na Casa Branca, ou em Bruxelas discursos de paz e justiça social".
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