por
BERNARDO MARIANO
Escadas acima ou abaixo, cruzando-se nos cotovelos do que será o percurso do visitante, carregando para aqui e para acolá, agachados colando ou pintando algo ou então empoleirados, manejando ferramentas manuais ou mecânicas, os trabalhadores afadigam-se no fantástico cenário do Museu da Electricidade, numa azáfama aparentemente relutante em deixar escutar a imponente voz que se desprende do sistema sonoro. Percebe-se porquê: têm pouco mais de 30 horas para concluir a sua missão: montar "Maria Callas - A Exposição de Lisboa", mostra que assinala a passagem dos 50 anos sobre a única actuação de Maria Callas (1923-1977) em Portugal, quando, em Março de 1958, cantou a Traviata no São Carlos.
Mas agora, no momento em que "estorvamos" toda esta actividade, a presença da Callas é ainda só muito ténue: apenas um grande monitor passando uma sucessão de imagens suas. E a voz, claro, quando se ouve. Custa a crer que amanhã à noite, todo este espaço será um templo "habitado" pelo espírito da mais famosa cantora lírica do século XX.
Carlos Vargas, administrador do Opart e nosso guia nesta visita, empregará por isso amiúde o tempo futuro nas suas explicações.
Reproduzamos então o circuito. A entrada: corredor forrado a negro, enorme perfil (em fundo negro) da Callas no topo e três árias como pano de fundo sonoro. Entramos na sala documental: certidão de nascimento, fotografias que acompanham a sua vida, correspondência vária, alguns objectos pessoais. Diz-nos Carlos Vargas que Bruno Tosi não impôs limites à escolha de itens dentre o enorme acervo que detém, pelo que "a certa altura, o difícil foi parar!". Depara-se-nos um largo corredor: só bustos de manequim (uns de pé alto, outros dependurados), aparelhos de ventilação e uns holofotes "arqueológicos": "Aqui irão estar vestidos feitos para ela, pessoais e de cena." Serão cerca de meia centena, sobressaindo um da Vestale que saiu "só" chamuscado do incêndio que devastou o Teatro La Fenice (Veneza) em 1996 e outro, todo em malha de prata, oferecido por Aristóteles Onassis. "As ventoinhas irão estar ligadas e farão os vestidos ondular e esvoaçar, dando uma certa vida às peças", explica-nos. A ideia foi do produtor de moda Dino Alves. No meio deste corredor em U invertido, uma "câmara escura" guarda e expõe jóias de cena que ela usou (colares, brincos, pulseiras, diademas, coroas), incluindo da Traviata de Lisboa.
Uma porta... e eis-nos no palco do São Carlos! O Teatro trouxe para aqui o cenário desenhado por Alfredo Furiga (que também é lembrado) do II Acto da Traviata de 1958. A "plateia" é feita de poltronas vindas... da plateia do São Carlos. Quem se lá sentar, que coloque os auscultadores e ouça como Callas cantou em Lisboa (gravação da então Emissora Nacional preservada e editada pela Antena 2).
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