por
Mário Soares
Na semana passada Portugal - bem como a Espanha, a França e um pouco o Reino Unido - foi surpreendido por um fenómeno novo a que os jornais chamaram, impropriamente, greve dos camionistas. Impropriamente, digo, porque se tratou mais de um lock-out, paralisação e bloqueio ordenados pelos patrões, pequenos e grandes, do que de uma greve dos motoristas contra os patrões, visto que estes aderiram ao lock- out, com receio justificado de perderem os seus postos de trabalho.
A verdade é que essa manifestação colectiva, contra o aumento dos preços do petróleo e do gás, afectou as pequenas e grandes empresas, é óbvio, mas não foi da responsabilidade do Governo - de nenhum dos governos dos países atingidos -, mas sim consequência directa da crise múltipla, energética e alimentar, além de outras, que partindo dos Estados Unidos e da globalização neoliberal, anglo-saxónica e especulativa, afecta agora o mundo em geral e a Europa, carente de combustíveis, em particular.
A paralisação e o bloqueio dos camionistas criaram graves problemas a toda a população, uma vez que são os camionistas que, principalmente, alimentam de produtos frescos - legumes, frutas, leite, ovos, peixe e carne - as grandes superfícies e o pequeno comércio que ainda subsiste. Os consumidores em geral ficaram aterrados com a falta dos combustíveis e, principalmente, dos produtos de consumo quotidiano. Fizeram uma corrida nunca vista às bombas de gasolina e aos hipermercados. Mas também houve muitos que temeram pelo carácter inesperadamente violento, que as manifestações tomaram, forçando os camionistas que não queriam aderir ao lock-out, apedrejando os camiões em que seguiam e mesmo incendiando alguns. Houve um morto, acidental, que obviamente todos lamentaram. E houve outros sectores - como pescadores, agricultores, empresários de viveiros de aves, taxistas, etc. - que se preparavam para se juntar aos protestos e ameaçaram também paralisar. Com a publicidade que foi dada por todas as televisões e rádios às manifestações - que chegaram a competir, em espaço e tempo reservado ao euro-futebol - muitos portugueses chegaram a pensar que estávamos a entrar num período caótico... As pessoas assustaram- -se, com razão...
Perante o silêncio intolerável de alguns responsáveis políticos e de partidos da oposição, como o PSD, começaram os ataques ao Governo por inacção, fraqueza, desorientação. Sem razão, diga-se, em abono da verdade. O Governo - e em especial o primeiro-ministro, o ministro das Obras Públicas, a secretária de Estado dos Transportes e o ministro da Administração Interna, mantiveram o sangue frio, como se impunha, e tiveram a prudência de nunca cortar o diálogo com os manifestantes: a Antram, os empresários mais pequenos e os camionistas por conta própria. Fizeram bem. Chegaram a acordo com os interessados e desmobilizaram os manifestantes, sem cederem no principal. Ou seja: sem conceder subsídios aos interessados para fazer baixar, artificialmente, o preço da gasolina e do gasóleo, como eles pretendiam. Essa era a linha limite, inegociável! Porque equivaleria a pôr em causa o equilíbrio financeiro do Estado - nomeadamente o deficit das contas públicas - que com tão grande esforço foi conseguido. Os governos de Espanha e de França não fizeram melhor. Antes pelo contrário. E reconheçamos que no debate final, no Parlamento, o primeiro-ministro nas suas intervenções e respostas, directas, precisas e claras, convenceu.
Claro que a crise global não é só energética e alimentar - as duas que mais afectam os cidadãos comuns. É também política, financeira, económica, social e ambiental. Uma crise de civilização, estrutural, que teve o seu epicentro na América de Bush - que está a chegar ao fim do seu mandato - e que começa a repercutir-se na Europa e nomeadamente na nossa vizinha Espanha.
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