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E AGORA?

por

Manuel Maria Carrilho  

A crise aí está, acompanhada por um indesmentível sentimento de apreensão no País. E a sua dimensão e características ameaçam boa parte dos objectivos assumidos pelo Governo para esta legislatura. Convém pois olhar não só para trás, para perceber o que se passou, mas sobretudo para a frente, para definir uma estratégia capaz de ultrapassar as actuais dificuldades.

Olhando para trás, verifica-se que para o sentimento de crise contribuíram diversos factores. Por um lado - ainda antes dos protestos dos camionistas e das suas consequências -, foi a divulgação do documento da União Europeia sobre as desigualdades em Portugal, foi o estudo de Bruto da Costa sobre a pobreza, foi a revelação do brutal nível de endividamento dos portugueses (76% do PIB nacional), foi ainda o relatório da OCDE sobre as nuvens que pairam sobre as perspectiva económicas do País.

Por outro lado, enquanto o PSD parecia finalmente encontrar a liderança que procurava há três anos, o CDS fazia a sua prova de vida apresentando no Parlamento uma moção de censura ao Governo, o Bloco de Esquerda promovia no Teatro da Trindade um comício que contava com a inusitada participação de Manuel Alegre, o PCP e a CGTP voltavam à rua fazendo desfilar em Lisboa mais de 200 mil pessoas.

Tudo isto convergiu e teve, naturalmente, significado. Mas é talvez excessivo afirmar que "numa semana o ciclo político do País mudou" (São José Almeida, Público, 07/06/08). Isto porque, se a conjunção destes acontecimentos produziu sem dúvida um clique na ordem das expectativas, isso só aconteceu porque um outro conjunto de factores, de natureza mais estrutural e global, se acumulou nos últimos tempos. Primeiro foi a crise financeira do crédito imobiliário. Depois, o seu impacto na economia real, com pesadas e múltiplas consequências (menor crescimento, juros mais altos, perda de poder de compra, etc.). Por fim, a sua dramática conjugação com o aumento do preço do petróleo e a subida do custo dos alimentos.

Não admira que, neste contexto, se tenha alterado o estado de espírito dos portugueses, de um modo que muito provavelmente vai resistir aos arrebatamentos desportivos deste Verão de 2008.


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