A revolta descontrolada dos pequenos camionistas, que transbordou o enquadramento patronal da Antram, está a submeter o Governo a uma dura prova. Não é fácil pôr em ordem um sector tão pulverizado como o dos transportes rodoviários, dividido por 8500 empresas, 48 mil camiões e 70 mil trabalhadores. Mas é a primeira tarefa do Governo garantir o cumprimento das leis da República e punir quem impede a livre circulação de bens.
Com a economia estagnada e no meio de uma grave crise internacional, é intolerável que algumas centenas de camionistas paralisem o País e causem prejuízos incalculáveis a sectores económicos que deles dependem para viver, como é o caso dos produtores avícolas, agrícolas e de leite, bem como de indústrias exportadoras, como a têxtil. José Sócrates faz bem em apostar na diplomacia. Cedeu no acessório, ao aceitar voltar atrás na decisão de retirar aos camionistas o desconto nocturno nas portagens, concedido por António Guterres. E manteve--se firme no essencial, ao recusar subsidiar os combustíveis.
Como os camiões gastam em média 20 litros de gasóleo aos 100 quilómetros e o combustível pesa 35% no total dos custos das empresas de transporte rodoviário, é natural que os camionistas estejam preocupados com as consequências da escalada do preço dos petróleo. Mas a solução é simples numa economia de mercado como a nossa. Consiste em transferir para os consumidores o aumento dos custos de operação. Pensar em pôr todos os contribuintes a financiar o gasóleo é, no mínimo, recuar 35 anos no tempo.
O Tratado de Lisboa já está ratificado pelo poder legislativo em 18 países da União Europeia (a Grécia fê-lo ontem ). Dos 10 países restantes, três ainda não iniciaram o processo de ratificação (Chipre, Espanha e Suécia), seis outros encontram-se a meio de processos de ratificação mais ou menos complexos e, num só país, a Irlanda, decorre a consulta directa, hoje.
A última sondagem anuncia um empate técnico: 42% diz querer votar "sim", 39% inclinam-se pelo "não", 19% declaram-se ainda indecisos em vésperas de ida às urnas. Eis a suprema ironia nesta construção sui generis da União Europeia: o desenvolvimento das instituições, que contam cada vez mais no dia-a-dia de 495 milhões de europeus, vai ser, porventura, decidido por escassos milhares de votos de diferença num país de 4,5 milhões de habitantes. Que tem beneficiado, como nenhum outro, com a sua adesão a esta comunidade de dimensão continental, ao ponto de gozar hoje de um nível de vida superior ao conjunto da UE. Na base de algum cepticismo estará o abrandamento da caminhada do tigre celta nos últimos dois anos ou, até, a saída há pouco mais de um mês de cena do primeiro-ministro Ahern, por alegado escândalo de corrupção. A contaminação do referendo com temas nacionais, que lhe são alheios, é uma realidade inelutável.
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