Os dois mil anos da história e da ciência europeias, que produziram pensadores brilhantes e pensamentos e textos visionários, que impulsionaram o mundo e as ideias, e lançaram a sociedade humana (pelo menos a ocidental) numa rota de progresso nunca questionado, parecem ter chegado ao fim. Ou estão, pelo menos, em estado de suspensão profunda.
Assim o diz George Steiner, o "último dos intelectuais europeus", como já lhe chamaram. Nascido em Paris, em 1929, filho de judeus vienenses oriundos de um meio cultural rico, George Steiner, cuja família se exilou nos Estados Unidos para escapar ao nazismo e ao holocausto, é ensaísta, pensador, crítico literário e romancista de referência obrigatória.
"Onde estão os Platões, os Bachs, os Mozarts, de hoje? Onde estão as grandes obras literárias inspiradas por feitos científicos, como a chegada do homem à Lua?", perguntou na conferência que proferiu ontem de manhã, na Gulbenkian, na abertura do encontro "A Ciência terá limites?"
A resposta deu-a ele próprio, sem hesitações. Provocador, incisivo, com uma nota de humor (quase negro), pessimista, gerindo o balanço certo entre o tom imperativo e o silêncio que se segue às grandes frases: "Não os há". Nem Platões, nem obras literárias de génio, garantiu Steiner.
A Europa, explicou, e a sociedade europeia com ela, e a sua civilização (ciência incluída, provavelmente), "está numa crise profunda". E se a sua origem parece ser o esgotamento do próprio continente - "a Europa está cansada e nem tem vontade política para resolver os seus pequenos problemas sujos", disse, referindo-se à guerra nos Balcãs -, a descrição dos sintomas desse esgotamento é ainda mais fácil de fazer. É a proliferação de "barbáries" e "inumanidades", como a humilhação dos pobres, face "a ricos que se passeiam nas suas limusines", a malnutrição e a fome de crianças, a religião do futebol, a pornografia, o dinheiro como valor supremo.
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