por
Fernanda Câncio
jornalista
fernanda.m.cancio@dn.pt
Machismo obsoleto" e atentado contra "o princípio da igualdade entre mulheres e homens", assim como contra "a sensibilidade social". Foi com estes argumentos que um juiz espanhol condenou em 2004 o imã egípcio Mohamed Kamal Mustafa, que residia e trabalhava em Fuengirola, a um ano e três meses de prisão e à multa de 2160 euros. Em causa estava a autoria de um livro, publicado em 1997 por este considerado "sábio do islão" licenciado em "lei islâmica", em que se descrevia o homem como "senhor do lar" e se explicava como bater nas mulheres. "As pancadas devem ser dadas em sítios precisos do corpo, como os pés e as mãos, com uma vara fina e flexível para que não fiquem cicatrizes nem hematomas"; "não devem ser fortes porque o objectivo é o de causar um sofrimento psicológico e não humilhar ou maltratar fisicamente". A ideia, afinal, seria causar "um simples sofrimento simbólico que não seja excessivo".
A sentença, resultante de queixa de várias associações de mulheres, correu mundo. O imã, de 42 anos, passou 20 dias na prisão, vendo a pena comutada sob condição de frequentar um curso de seis meses sobre a Constituição espanhola e a Declaração Universal dos Direitos Humanos. A Federação das Entidades Muçulmanas e a Comissão Islâmica castelhanas vieram, publicamente, certificar que nem o Alcorão, "ou outro texto sagrado do islão incentivam qualquer tipo de violência sexista", mas Mustafa continuou imã de Fuengirola - e, ironia das ironias, abriu este ano um centro de "aconselhamento familiar" em Ceuta.
"É assim o islão", diz a "opinião pública" em Espanha, como em Portugal, com o desdém com que se tratam as religiões minoritárias. Coisas "bárbaras", de "bárbaros" - muito muito diferentes das opiniões de Luciano Guerra, reitor do Santuário de Fátima, sobre a violência doméstica. "Há o indivíduo que bate na mulher todas as semanas e há o indivíduo que dá um soco na mulher de três em três anos (...). Eu, pelo menos, se estivesse na parte da mulher que tivesse um marido que a amava verdadeiramente no resto do tempo, achava que não [era razão para divórcio]. Evidentemente que era um abuso, mas não era um abuso de gravidade suficiente para deixar um homem que a amava." Reveladas à revista NS de 6 de Outubro, estas palavras do prelado não suscitaram até agora qualquer reacção pública nem das associações nem das instituições que no País zelam pela igualdade de género. Nem tão-pouco da hierarquia da confissão na qual Luciano Guerra ocupa lugar de destaque. Passada a inauguração oficial da nova igreja do complexo onde impera, passadas as mil reportagens e as centenas de entrevistas e até alguns comunicados e não havendo notícia de uma linha, uma declaração sobre o assunto, deve poder-se dizer, ao 13.º dia, que a Luciano Guerra foi concedido o dom de dizer alto e em letra de imprensa aquilo que os seus superiores pensam.|
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