por
ISABEL LUCAS
RODRIGO CABRITA (imagem)
Este é um livro sobre a perda da inocência, a de uma jovem sobre o seu país?
Para mim seria demasiado fácil escrever sobre a Alemanha na perspectiva de algém que não gostasse da Alemanha. Quis escrever na perspectiva de uma menina que adora a Alemanha e viu o seu país perder o rumo. Sophie é uma rapariga de 14 anos que se julga má e sofisticada, mas não tão má nem tão sofisticada quanto pensa. Ela perde a fé no seu país, nos pais... Fica desnorteada quando o pai decide abandonar o Partido Comunista e tornar-se membro do Partido Nacional Socialista.
Vindo de uma família judaica esse exercício foi difícil para si?
Vi-me forçado a ele. A minha família é judaica, laica, de Nova Iorque que via a Alemanha como o Diabo, o monstro. A minha mãe recusava comprar produtos alemães nos anos 50 e 60. Ela perdeu mais de cem parentes na Polónia. Cresci a desconfiar da Alemanha, a desconfiar, sobretudo, da memória dos alemães. Conheci o meu companheiro, o Alexandre Quintanilha, em finais de 1978 e a sua mãe era alemã de Berlim. Adorei-a. Era aberta, muito calorosa, alegre e, sendo ela alemã de Berlim, tive de avaliar a minha relação com esse país através dela. De um momento para o outro tive de admitir que as minhas ideias em relação à Alemanha eram preconceituosas. Hoje, sinto-me totalmente à vontade em Berlim; estou lá como em casa e questionava-me: como é que uma cidade sofisticada vira nazi?
O grande tema deste romance é o modo como o nazismo tratou os deficientes. Sempre a partir de Sophie e de uma frase lapidar do narrador: "O nosso precoce sentido do grotesco."
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