por
ANA MAFALDA INÁCIO
PAULO SPRANGER (imagem)
Carlos, de 35 anos, vivia há 12 meses no sexto andar do número 67 da Avenida Duque de Loulé, em Lisboa, onde tinha alugado um quarto ao senhor Américo, um homem de 70 anos que habitava o primeiro andar do mesmo prédio com a mulher. "Era uma boa pessoa, um pai para nós. Ajudava sempre que podia e fazia o mesmo ao Carlos. Às vezes, até o carro lhe emprestava", contaram-nos. Mas, na manhã de quinta-feira, Carlos e Américo desentenderam-se, supostamente por "muitas rendas em atraso", argumentaram-nos. O inquilino agrediu fisicamente o senhorio até à morte e guardou o corpo no armário do quarto alugado. O suspeito foi detido na mesma noite, quando chegava a casa com uma pizza.
O desaparecimento de Américo foi comunicado pela mulher à PSP de Lisboa. "A dona Delmira estranhou que ele tivesse saído de casa às nove e picos, de chinelos, e que não regressasse para almoçar", explicou um dos vizinhos do prédio. A idosa pediu ajuda ao casal que mora ao seu lado, pois a ausência do marido não era normal. "Pediu-me para ir ver se ele estava no sexto andar, pois foi lá e nunca mais apareceu. Fui lá, mas o Carlos disse-me que não o tinha visto e que até precisava de falar com ele. Ia mudar-se para outro lado e queria pagar-lhe", acrescentou.
Delmira estranhou. "Ela disse que o marido nunca iria para a rua em chinelos e decidiu chamar a polícia", contou o vizinho. Os agentes da PSP chegaram logo ao início da tarde. Revistaram o sexto andar, mas "não encontraram nada. Só não entraram na despensa, que estava trancada", pormenorizou a mesma fonte. Na altura, só Carlos e um outro hóspede, dos quatro que habitavam o sexto andar, se encontravam em casa. "Os agentes disseram à mulher que voltavam no dia seguinte para ver a despensa, caso o senhor Américo não aparecesse", acrescentou ainda o vizinho.
"A mulher não descansou e pediu-me para ir com ela à Judiciária. Fomos e disseram-nos que ele iria aparecer mais tarde", relatou. "Quando chegámos, a dona Delmira percebeu que a porta de casa estava fechada com quatro voltas, como o marido costumava fazer e pensou que ele tivesse voltado, mas não. Ela percebeu que alguém tinha lá estado em casa e chamou familiares. Estes, à noite, ligaram outra vez à polícia, dizendo que não era normal o que estava a acontecer", afirmou ainda o jovem. A polícia regressou à Duque de Loulé e arrombou a despensa, onde "apenas encontrou latas de tinta branca", disseram-nos. Carlos não estava em casa, mas a polícia entrou no seu quarto e encontrou o corpo dentro do armário, bem como 400 euros e várias jóias roubadas da casa do senhor Américo, quando a mulher se ausentou durante a tarde para apresentar queixa na polícia. Segundo fonte da PJ, "o corpo estava em posição fetal embrulhado em sacos de plástico preto". Tudo leva a crer que o corpo possa ter sido mudado da despensa para o armário, após a primeira revista da PSP.
Carlos foi detido ao entrar em casa, quando regressava com uma pizza na mão para jantar. Agora, encontra-se em prisão preventiva a aguardar julgamento. No prédio, o ambiente é de receio e de tristeza. "O senhor Américo ajudou tanto o Carlos. Deu-lhe comida e dinheiro. Ele não conseguia trabalho na construção civil e queixava-se de que a família, depois do divórcio, o abandonou". As vizinhas do quinto andar cruzaram-se com Carlos na manhã do crime. "Estava irritado e cheio de tinta branca", contaram-nos. A discussão que terá levado ao homicídio ninguém ouviu. O funeral do senhor Américo ainda não se sabe quando será realizado.|
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