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As múltiplas vozes de um silêncio culpado

por

MIGUEL-PEDRO QUADRIO

DIREITOS RESERVADOS (imagem)  

Agora, no Bairro Alto, a Casa d'Os Dias da Água ocupa a antiga sede da gráfica Interpress (na Rua Luz Soriano, n.º 67-A). A amplidão do espaço vazio, dividido apenas por uma pequena plataforma, facilitou o renovamento do modelo dinâmico de encenação que Carlos Afonso Pereira aplicara a Via Dolorosa, em 2003.

Se nessa outra peça de David Hare (n. 1947) o olhar sobre o confronto israelo-palestiniano era extrínseco à acção, n'Um Estado Permanente (2003) o dramaturgo vira-se para a Grã-Bretanha contemporânea, escalpelizando a perda de influência dum Estado regulador e a desresponsabilização dos privados (aqui, os caminhos-de-ferro) face aos prejuízos causados aos cidadãos.

O encenador e intérprete fixa, pois, o público numa sequência de cadeiras, arrumadas como numa carruagem de comboio, enquanto se move por três espaços distintos, tantos quantas as mudanças de perspectiva. Cruzam-se, assim, a voz perplexa, mas indiferente, da opinião pública - que chega através dos fragmentos lidos pelos espectadores -, a dos que dirigem as novas companhias privadas, mais atentos ao lucro do que à segurança, e a das vítimas de acidentes e seus familiares, dolorosamente desamparada.

Reunindo em si as várias personagens imaginadas por Hare, Carlos A. Pereira amplifica a extraordinária força ética e política deste texto nada panfletário. É assinalável a inteligência performativa com que interage com os poucos elementos cénicos - a projecção duma linha filmada a partir dum comboio, indicando a rotina, ou as máquinas de destruir papel que trucidam os memorandos inconvenientes das empresas -, a sua proximidade ao público (vincando a dor irreparável das vítimas) ou a fina ironia com que denuncia tanto a apatia de quem teima em não reclamar os seus direitos, quanto o peso quase insustentável do arsenal que as empresas esgrimem nessas guerras legais (só lamento algumas falhas evitáveis na tradução).

Nota: no mesmo dia em que, com colegas do Expresso e do Público, fui entrevistado acerca da crítica de teatro em Portugal para a revista dos Artistas Unidos, foi-me oferecido um número anterior, o 19.º, onde Jorge Silva Melo (JSM) reincide no "insulto escondido com rabo de fora". Não querendo - ou sabendo - defender Amador, espectáculo que critiquei aqui negativamente a 20 de Fevereiro, enviesa a resposta numa "boca" gratuita. Ora, não seria mais produtivo que JSM trocasse estes joguinhos pouco sérios por um trabalho artisticamente eficaz?|


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