por
RUTE ARAÚJO
Liberalização fez laboratórios subirem os preços
Há medicamentos de venda livre que estão a sair da fábrica com o dobro do preços por unidade do que em 2005, antes da liberalização deste mercado. Várias farmácias e lojas de medicamentos contactadas pelo DN queixam-se que os laboratórios aproveitaram a liberalização para subir o valor cobrado por estes remédios. E, a estes valores, acrescem ainda no preço final as margens que cada um destes estabelecimentos cobra.
De acordo com a tabela de compras de uma farmácia de Lisboa, a que o DN teve acesso, as variações dos preços por unidade ultrapassam os 100% em alguns remédios. É o caso do Antibiophilus, um antidiarreico que em 2005 custava 1,28 euros (preço de venda ao armazenista) e hoje custa 2,81 euros. Numa embalagem de 20 comprimidos, cada um deles teve uma subida de 119% em dois anos - de seis cêntimos passou para 14. O DN tentou obter um esclarecimento por parte da empresa, os Laboratórios Azevedos, mas não obteve resposta até ao fecho desta edição. Subida semelhante tem, por exemplo, o Venoruton, um gel cutâneo para as dores e edemas, que há dois anos custava 1,77 euros por unidade de toma e hoje custa 4,04 euros - mais 128%. Os exemplos são vários. Outra pomada, o Thrombocide, teve um aumento de 45% - de 1,6 euros passou para 2,4 euros.
A esta subida é ainda acrescentada a margem de lucro do vendedor - a farmácia ou a loja. Antes da liberalização, as margens estavam fixadas - a farmácia só podia ter um lucro até 20%. Mas hoje cada estabelecimento cobra o que entende. Por isso, um estudo recente da Deco Proteste conclui que estes remédios estão mais caros, em média 3,5%, do que há dois anos, e é nas farmácias que mais subiram. O Instituto Nacional da Farmácia e do Medicamento (Infarmed) garante que estes estão em média 0,7% mais baratos, mas só dispõe de dados das lojas e são as farmácias a deter 95% do mercado.
A razão para o aumento de preços varia consoante os casos - ou é inflaccionada pelo laboratório ou pela farmácia ou loja. O Antigrippine, por exemplo, é apontado pela Deco como o medicamento que mais encareceu (42%). Mas na referida tabela da farmácia, a subida por unidade de toma é de 8% à saída da fábrica. O que não explica os 42% de aumento encontrado - produto das margens do grossista e do estabelecimento de venda. A Aspirina sofreu um aumento no laboratório de 10%, mas a Deco identificou uma subida na venda ao pública que ronda em média os 27%. A GlaxoSmithKlein, que comercializa o Antigrippine e outros fármacos não sujeitos a receita, como o Zovirax, garante que as subidas dos seus produtos são entre os "dois e os oito por cento", e não mais do que isso. "São valores razoáveis que seguem a inflação", defende o director geral do laboratório, Rui Simões Silva. E garante que o Antigrippine só subiu cerca de 6% e acrescenta que a empresa não pratica preços diferentes consoante o distribuidor (farmácia, loja ou grande superfície). "Temos as nossas tabelas de preços, que só mudam consoante as quantidades", refere. A Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica diz que não dispõe de valores de venda de cada associado e não pode comentar. E não foi possível também obter uma reacção dos laboratórios destes produtos, devido às férias.
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