por
Leonídio Paulo Ferreira
jornalista
leonidio.ferreira@dn.pt
AEconomist teve há uns tempos de engolir um grande sapo para publicar o editorial "Castro está certo". Por uma vez, a revista de culto dos liberais britânicos pôs-se do mesmo lado da barricada que o líder cubano. Tudo por causa do etanol, o prometido substituto do petróleo, denunciado como falso milagre, sobretudo quando feito com milho. Porque pode causar à humanidade mais problemas do que aqueles que resolve. Agora, a OCDE e a FAO vêm fazer um alerta semelhante, culpando o biocombustível pela alta nos preços internacionais dos alimentos. Ainda em convalescença da sua doença-tabu, Fidel Castro estará surpreendido com tanta gente a dar-lhe razão. Repetem grosso modo o que afirmou o comunista já em Março: a "ideia sinistra de converter os alimentos em combustível" pode trazer a fome a milhões.
No Granma, jornal do PC Cubano, Fidel escreveu que o biocombustível ameaça a humanidade de "genocídio". Três mil milhões de pessoas nos países mais pobres assistiriam impotentes ao disparar dos preços do milho e, por arrasto, do trigo e do arroz. E tudo, acrescentou a Economist, em nome desse etanol feito pelos americanos que nem sequer é tão barato e verde como dizem. Consome tanta energia para ser produzido como aquela que liberta ao ser queimado, um absurdo sustentado pelos subsídios aos agricultores. Aos críticos do biocombustível juntaram-se dois economistas da Universidade do Minnesotta, que na Foreign Affairs proclamaram em tom mais sóbrio o mesmo que Fidel: a aposta dos Estados Unidos no etanol pode ter "consequências devastadoras para a segurança alimentar mundial". Assustador para a metade da humanidade que vive com menos de dois euros por dia. Na revista diplomática, os académicos avançaram ainda um dado choque: encher o depósito de um 4X4 com etanol exige 200 quilos de milho, suficiente em calorias para sustentar uma pessoa um ano.
Fidel Castro não se preocupou em distinguir o etanol de milho do seu inimigo Bush do feito de cana-de-açúcar do seu amigo Lula. Mas as diferenças entre os dois biocombustíveis são grandes e a maioria das críticas não se aplica à cana (elogiada pela Economist). Mesmo assim, há dias o Presidente brasileiro teve de ouvir a Comissão Europeia alertá-lo: "Os europeus não pagarão mais para adquirir biocombustível se o etanol que move os seus carros vier da queima de campos e de cultivos. Ou se se produzir à custa da selva amazónica." Lula garantiu que tal não aconteceria, mas o comissário europeu do Comércio parecia ter acabado de ler Fidel no Granma.
Já agora, o que pensam sobre isto os cubanos? Os de dentro, nada, porque não podem. E para os de fora, um homem que está agarrado ao poder há meio século deixou há muito tempo de ter qualquer razão. Mesmo quando parece ter alguma. |
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