por
MARIA JOÃO CAETANO
MIGUEL GONÇALVES DA SILVA-ARQUIVO DN (imagem)
"A vida é uma mochila que vamos enchendo com o bem e o mal que fazemos", dizia Henrique Viana. O actor que popularizou a figura do Calinas, o alfacinha chico-esperto, morreu ontem em Lisboa, vítima de cancro. Tinha 71 anos. Na sua mochila tinha uma carreira que se estendeu por mais de 50 anos, sobretudo no teatro e no cinema, os meios que preferia, apesar de ter feito muita televisão.
Nasceu a 30 de Junho de 1936 em Lisboa, a cidade onde morou sempre, na Madragoa e em Santa Catarina. Tinha sete anos quando foi com o irmão, José Viana, ver uma cegada, Perdão à Saudade. "Aprendemos tudo de cor e salteado e um dia fizemos uma representação para a família", contou em entrevista ao Sete em 1978. "Mas daí até entrar para o teatro a sério muito tempo se passou!"
Aos 11 anos empregou-se numa loja de fazendas - começou como moço de recados e terminou como caixeiro, já com 18 anos. Foi tipógrafo, empregado num escritório de advogados, vendeu electrodomésticos porta-a-porta e foi funcionário no Ministério das Obras Públicas. Mas Henrique Viana queria mais. Aos 16 anos passou-lhe pela cabeça ser futebolista e foi oferecer-se ao seu clube, o Benfica - mas só aceitavam jovens com 17 anos. Depois, andou com a mania de ser toureiro.
O teatro "aconteceu por acaso." Henrique Viana costumava frequentar a Sociedade Guilherme Cossul, ia à biblioteca e aos bailes e começou também a juntar-se ao grupo de teatro amador. Tinha 22 anos quando entrou em Amanhã Há Récita, de Varela Silva, ao lado de Luís Alberto, Alina Vaz e Fernanda Alves. "Foi um pontapé do meio-campo que me deu golo não sei bem como", dizia numa entrevista em 2000. "Era um actor que dava uma excelente contracena, com a inflexão certa das personagens", lembra Alina Vaz.
Um ano depois, recebeu um telefonema de Amélia Rey Colaço convidando-o a fazer um teste. A estreia profissional aconteceu na temporada 1959-60, quando integrou o elenco do Teatro Nacional em Lugre, de Bernardo Santareno. Trabalhou com Vasco Morgado, fez parte da equipa que fundou o Teatro do Nosso Tempo, integrou o Teatro da Estufa Fria e, a partir de 1971, a companhia do Teatro Villaret. Fez muita revista ("ò Calinas, cala a boca!") e foi um dos fundadores do Adóque, cooperativa de actores do pós-25 de Abril.
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