por
Fernanda Câncio
jornalista
fernanda.m.cancio@dn.pt
Não posso dizer que estou surpreendida. Era exactamente isto que esperava. Muitos "agora é que é", e "não se admite mais isto", "chega de abuso", de um lado, muito choro, ranger de dentes e declarações grandiloquentes sobre a liberdade individual dos fumadores e o "totalitarismo (ou polpotismo, ou estalinismo, ou nazismo, conforme o grau de histeria) sanitário", mais "onde é que eu vou poder fumar, sim, digam-me" do outro, e zás: a lei deixa na mesmíssima uma das situações mais gravosas para os não fumadores, a de terem de conviver com o fumo dos outros durante as refeições. Ao decretar que em estabelecimentos de restauração de área até cem metros quadrados cabe ao proprietário determinar se este é ou não livre de tabaco - com aquela ressalva piedosa de ter "de haver mecanismos de extracção de fumo" -, a lei, fingindo que muda alguma coisa, cria as condições para que a esmagadora maioria dos restaurantes, cuja área é pequena, mantenha a política actual de tudo a fumar e é se quiser, até porque "sempre foi assim, etc. e tal, porque havemos de mudar".
Há, é claro, a "obrigatoriedade" da "extracção de fumos". Uma belíssima ideia. Sucede que como qualquer pessoa - nomeadamente qualquer pessoa que não fume - sabe, não há mecanismo de extracção que impeça o fumo da mesa do lado (que na maioria dos restaurantes lusos está encavalitada na nossa) de nos invadir o nariz enquanto tentamos saborear o cozido, o sushi ou os pipis. É que o fumo tem uma característica muito dele: dissolve-se no ar. Uma extracção eficiente pode impedir os restaurantes de se transformarem numa sucursal do bom velho pub, mas de certeza não impede o incómodo causado pelo cheiro do tabaco e, sobretudo, não impede os elementos carcinogéneos de pairar alegremente.
Quando grande parte dos países civilizados, incluindo o éden dos pubs - Reino Unido e Escócia - proibiu o fumo nos locais públicos fechados, por cá os eminentes deputados da nação, com os socialistas à cabeça, resolveram ser porreiraços e mandar às urtigas os princípios que enformam a lei. Afinal, se o tabaco, incluindo o fumo "em segunda mão", é responsável por uma infinidade de patologias e mortes, isso, parece, só se passa em espaços superiores a cem metros quadrados. Quanto mais pequeno o espaço, mais inofensivo o fumo. Só não se percebe por que motivo deixou de ser possível fumar em aviões, autocarros e comboios, ou por que carga de água não se fuma nos locais de trabalho. Ou há moralidade ou comem todos. Com a liberdade de fumar dos outros, pois claro - e é se quiserem comer alguma coisa.
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