por
ANA MARQUES GASTÃO
TIAGO LOURENÇO (imagem)
Na sua obra há um alter ego imaginário que neste novo romance, As Bicicletas em Setembro, se diliu, ou melhor multiplica-se, em várias personagens. Aqui a figura central é uma mulher, Jesuína, imagem não do Eterno Feminino, mas de uma força mordaz, da astúcia, da sabedoria. Concorda?
Queria fazer uma metáfora da pátria que nos nasceu, que nos cresceu, nos sufocou. Saiu esta mulher em liberdade, contrariando as minhas ideias iniciais. Ela estabelece os laços entre liberdade e identidade e talvez permita erguer a questão das novas figuras de autoridade.
Esta mulher, temida, onde mora o espanto, o absurdo, a dor, a solidão e um certo poder, é uma personagem de sempre. Estava para ser escrita desde quando?
Creio que desde sempre. Quando tinha 14 anos, escrevi no Diário Popular de que o meu pai foi fundador, um conto sobre a minha avó; trinta e cinco anos depois, retomei-a no romance Cão Velho entre Flores. Foi uma oradora de classe e trabalhou nas fábricas de merino, no sopé da calçada da Ajuda, na antiga Rua das Casas do Trabalho. Ela e outras personagens femininas, que percorrem todos os meus livros, são a imagem devolvida daquilo que aprendi sobre a grandeza das mulheres. Possuem uma integridade e uma coragem que, amiúde, não encontro nos homens.
Jesuína: várias mulheres? Tem sido abordada a questão da androgenia, mas é forçada. Ou seja, não é artificial a sua construção psicológica e física...
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