por
JOSÉ MÁRIO SILVA
Poeta, crítico, ensaísta e blogger - com presença diária no blogue Da Literatura (daliteratura.blogspot.com), de onde saíram os textos do volume Intriga de Família, recém-editado pela Quasi -, Eduardo Pitta é uma das vozes mais ácidas e contundentes do panorama cultural português dos nossos dias. Erudito e blasé, polémico e sem papas na língua, atento à actualidade e rápido a reagir, escreve sobre tudo e mais alguma coisa (do S. Carlos à Ota, passando pelos melhores restaurantes), com um desassombro que lhe causa não poucos engulhos num meio habituado a mesuras, verniz e salamaleques.
Embora a sua obra remonte a 1974 (Sílaba a Sílaba, poesia), estreou-se na ficção apenas em 2000, com Persona, um conjunto de três narrativas breves que deu à estampa numa editora discreta - a Angelus Novus, de Coimbra - e que republicou agora na Quid Novi, antecipando o lançamento do seu primeiro romance: Cidade Proibida. Uma coincidência que faz todo o sentido e não foi certamente fruto do acaso. Porque o que Persona deixava antever é o que Cidade Proibida confirma: a emergência de um narrador sólido, sem debilidades de principiante nem tiques de consagrado, capaz de contar uma história com precisão e lhaneza - coisa raríssima em Portugal.
Além disso, há evidentes pontos de contacto entre as duas obras. Se Persona era o retrato nítido, em três etapas bem marcadas no tempo, da formação da identidade homossexual de Afonso Cordes Sacadura, com a decadência do império colonial em Moçambique como pano de fundo e uma crítica explícita a dois universos repressivos (a escola e o exército), em Cidade Proibida deparamos com um fresco ao mesmo tempo minucioso, cruel e desencantado da sociedade portuguesa contemporânea. Ou, para sermos mais exactos, de uma certa faixa da sociedade portuguesa: a upper-class que vive fechada numa redoma, algures no eixo que vai das mansões da Linha à Lisboa das elites, reduzida ao "triângulo cujos vértices" passam pelo "Príncipe Real, a Praça das Amoreiras e o Saldanha".
Pitta demonstra conhecer muito bem este mundo de pessoas com apelidos sonantes (os Moncada, os Lemos Fortunato, os Ravara): altivos, snobes, quase todos hipócritas, convictos da sua superioridade social e "imunes ao quotidiano". É neste cenário etéreo que arquitecta a sua história de desagregação amorosa, focada na relação de um casal gay - Martim/Rupert - sujeito tanto às pressões do meio (Martim) como a um cocktail de ressentimento classista e sombras de um passado mal resolvido (Rupert).
O que mais impressiona no romance de estreia de Pitta é a admirável desenvoltura da prosa (que se lê numa vertigem), a elegância estilística e o domínio das técnicas narrativas. Há um fio de acontecimentos que se sucedem na Lisboa do início do séc. XXI, subtilmente marcados pela História (dos traumas coloniais ao 11 de Setembro), e uma série de flahsbacks que se encaixam no puzzle com uma justeza próxima da perfeição.
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