por
João Miguel Tavares
Jornalista
jmtavares@dn.pt
P assei 15 dias fora do país. Antes de ir, a Câmara de Lisboa era um caco inapresentável, com uma dívida estimada em mais de mil milhões de euros. Depois de vir, encontro uma dúzia de candidatos aos pulinhos, cheios de vontade de presidir à coisa. Afinal, o que é que mudou? A dívida da câmara esfumou-se? Os seus 9659 funcionários prescindiram voluntariamente do lugar nos quadros a bem da solvência financeira do município? Nã. Nã me parece. Portugal não mudou assim tanto em dois séculos, quanto mais em duas semanas.
E, não mudando, só há duas formas de encarar esta contradição alfacinha entre a qualidade da oferta e a quantidade da procura. Uma delas, jovial e muito optimista, diz assim: a sociedade portuguesa esbanja saúde, está cada vez mais activa, as ideias políticas fervilham, os pequenos partidos querem fazer ouvir as suas vozes (ainda que algumas, tipo Garcia Pereira, soem a vinil riscado da década de 70) e há cada vez mais candidatos independentes dispostos a romper com as lógicas partidárias. É uma tese muito bonita, cuja divulgação deveria ser feita ao som de violinos celestiais.
Só que depois vem a forma pessimista, cinzenta e soturna de encarar os 12 apóstolos de Lisboa: na sua maioria, rapaziada interessada noutros campeonatos, que aproveita as eleições na capital apenas para se autopromover/agradar ao chefe/ limpar a honra/saltar para um pedestal mais alto (riscar o que não interessa). No meio disto tudo, a câmara é um apêndice - e não, como seria suposto, o centro da questão. Porque se ela, e o seu funcionamento, fosse o que realmente conta, garanto-vos que não haveria tanta alminha de dedo esticado. Imaginemos que Lisboa era uma grande empresa, e já agora falida, como efectivamente está: alguém acredita no aparecimento de uma dúzia de empresários para tomar conta de um negócio que tudo indica ser inviável?
Mas como os políticos portugueses não são responsabilizados pelo que fazem nem punidos por maus actos de gestão, ser presidente da Câmara de Lisboa é suficientemente sexy para justificar a correria. Daí os 12. Daí a confusão. Daí as ideias mais delirantes que já circulam por aí, em busca de uma nesga no telejornal. Querem exemplos? Olhem os dois independentes que supostamente deveriam trazer ideias "frescas". Roseta anda a pregar o conceito de "acupunctura urbana", com o qual pretende salvar a cidade, como se espetar agulhas num cadáver o fizesse ressuscitar. E Carmona escolheu como slogan de campanha "O meu rio é o Tejo. A minha canção é o fado. O meu partido é Lisboa", cuja intepretação freudiana só pode ser esta: eis um lisboeta triste, que mete muita água. Profético, diria eu. |
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