por
Baptista-Bastos
escritor e jornalista
b.bastos@netcabo.pt
O programa Portugal - Um Retrato Social, de António Barreto e Joana Pontes, levanta uma pergunta dilemática: que parte de responsabilidade temos no estado das coisas se, no menu do nosso dia-a-dia, o medo é um dos pratos de substância? Não somos como somos por acasos da fortuna. E já fomos o que há muito deixámos de ser. "Vivemos numa sociedade precaucionista, a forma mais cobarde de dissimular o medo", costuma dizer o Fernando Lopes, meu velho companheiro de tudo, que projectou, nos filmes Belarmino e Nós por Cá Todos Bem, os fantasmas dos nossos maus augúrios.
Barreto e Joana Pontes têm-nos fornecido, através da RTP, amplos motivos de reflexão sobre o íntimo destino de um estranhíssimo povo, mais propenso a caucionar o arbitrário e a admitir, resignado, o tirano, do que a fazer de cada momento da sua história um marco de consciência cívica. Quando um governo "socialista" promove a delação como conduta, e consubstancia a infâmia num folheto sórdido, tal acontece porque ainda nos encontramos moralmente enfermos. Logo após Abril, os números do aviltamento sobressaltaram os espíritos mais cândidos: quatro milhões de portugueses com ficha na PIDE, e cerca de quatrocentos mil informadores. Agora, na Socratolândia, propõe-se a setecentas mil pessoas que delatem, sugerindo-lhes que praticam uma acção moralizante quando se trata de procedimento desonroso. Este Governo, incapaz de cortar cerce a raiz da corrupção, avilta-nos a todos, ao acirrar à denúncia. E, ao incorrer no crime de corrupção moral, coloca-se na zona da delinquência que propugna punir.
Três séculos de Inquisição deram cabo do assomadiço que éramos. O terror da fogueira, a purificação das almas, o preço da salvação com que a Igreja pagava a denunciantes colocou-nos no lazareto espiritual. O mar desconhecido infundia-nos apreensão e susto. Não tanto quanto o dedo indicador do vizinho despeitado, do familiar desavindo, da amante abandonada.
Portugal - Um Retrato Social procede ao retrospecto de uma política, a salazarista, concebida como variante da infâmia. Porém, o que ocorre nesta "democracia", notoriamente avariada, confunde-se com a indecência de um tempo em que, profusas vezes, permitimos que o mal se convertesse em fatalidade inelutável. A democracia deve suscitar inquietações éticas nos cidadãos, nunca inspirá-los para cometimentos repugnantes. Com base no princípio da decência, a recusa à delação configura o mais nobre direito à desobediência. E o delator não passa de um vulgar canalha. Assim como quem o fomenta e exalta. |
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