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sociedade

Um segredo chamado Lúcia

por

Fernanda Câncio  

Foi em 13 de Fevereiro de 2005, durante a última semana da campanha eleitoral para as eleições legislativas, que se deu notícia da morte, aos 97 anos, da freira carmelita conhecida como irmã Lúcia. A sobrevivente dos três pastorinhos que desde 1917 puseram a Cova da Íria no mapa-múndi e sobre cujo nascimento se contam amanhã 100 anos podia ser, como escreveu em 1997 Fernando Dacosta, a mais famosa das portuguesas depois da diva Amália, mas era há muito, graças a décadas de clausura e silêncio, considerada por grande parte dos portugueses como símbolo fantasmático. Uma santa. Ou, como escreveu a jornalista e historiadora Fina D'Armada, "uma coisa morta conduzida por outros".

Houve três dias de luto, decretados pelo Governo de Santana Lopes, e cancelamento de comícios e declarações de pêsames e directos intermináveis nas televisões. Mas de Lúcia ficou, como até hoje, a saber-se o mesmo - quase nada, além da hagiografia que os seus seguidores e ela própria (Memórias da Irmã Lúcia) foram construindo. Afinal, quem era a mulher que dava ordens aos papas, que emendou Pio XII, Paulo VI e João Paulo II nas suas sucessivas "consagrações da Rússia a Nossa Senhora", considerando que uma atrás da outra (há quem conte oito) não estavam bem feitas - e portanto não podiam surtir o efeito desejado, ou seja, a derrota do "comunismo ateu"?

Quem era a mulher que tão aprimoradamente refez nas suas memórias a pose e as falas da senhora de branco que lhe surgiu sobre a azinheira, transformando em longos discursos o que nos primeiros interrogatórios eram "não me lembro", e as "argolinhas douradas nas orelhas" da visão, relatadas nos primeiros dias, na complexíssima descrição inscrita no quarto tomo das suas escritas ("Não lhe vi argolas. Lembro-me que o cordão de ouro que, à maneira de um raio de sol mais ardente, parecia debruar-Lhe o manto, reflectia no vão que deixava o manto, ao cair da cabeça sobre os ombros, no próprio brilho de Nossa Senhora, fazendo umas ondulações tão variadas na própria luz, que alguma vez me deu a ideia dumas pequenas argolas"), os seus companheiros de pastoreio, mortos de pneumónica pouco depois das vidências, em penitentes de corda amarrada à cintura (penitências das quais, pelo visto - e pelo lido- os pais de Jacinta e Francisco não se tinham dado conta à época)?

"Sou um instrumento de Deus"

Na sua própria descrição, Lúcia, que nasceu numa família de camponeses abastados (embora um alegado pendor do pai para a bebida surgisse a observadores como obstáculo a maior prosperidade), era uma predestinada, um "instrumento de Deus". As primeiras visões teve-as afinal, narra nas Memórias, muito antes de 1917. Aos seis anos, aquando da primeira comunhão, a imagem da Nossa Senhora do Rosário ter-lhe-ia sorrido; aos oito anos, ter-se-ia encontrado com um vulto "embrulhado", que regressa em 1916, dessa vez já na presença dos primos Jacinta e Francisco.Trata-se de "um jovem entre os 14 e os 15 anos (...)de uma grande beleza". Um anjo, portanto, que vai convidando os três petizes (de nove, oito e seis anos) à "oração e ao sacrifício", até se identificar como "o anjo da sua guarda, o anjo de Portugal".


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