Os bairros situados em redor do paiol militar onde se registaram as violentas explosões de quinta-feira em Maputo assemelhavam-se ontem de manhã a um cenário de pós- -guerra: corpos no chão, cobertos por lençóis ou capulanas, dezenas de munições de grande calibre por deflagrar, espalhadas por um raio de mais de 10 quilómetros e casas arrasadas que ainda escondiam muitos mortos.
"Regredi 20 anos", lamentou-se João Machava, de mãos trémulas e voz embargada, enquanto relatava à Lusa o momento em que uma peça de artilharia arrasou tudo o que conquistara ao longo de 57 anos. De um lado, estava o que sobrou de um carro em que empenhou as suas economias: uma amálgama de ferros retorcidos coberta de pedras e de terra. Do outro, a casa ou o que restou dela: a fachada de betão é agora uma enorme cratera, no interior sobram só destroços que soterram quase tudo o que lá existia.
Alguns metros mais à frente, Adolfo José Mianga lançava um olhar atónito sobre os pequenos fragmentos que restaram de uma casa que lhe custou anos de sacrifícios. "Está tudo destruído. Ali tinha uma aparelhagem, televisor e tudo foi embora. Minha loiça também. É uma desgraça".
Ao seu lado, o filho Otávio ainda não se refez do momento em que o céu "começou a trovejar". "Ajoelhámo-nos e começámos a orar. Pedimos a Deus a sorte dessas coisas, para a vida, para não suceder maldições e para não haver destruição na casa."
Entrando pelo labirinto de ruas de areia do Bairro das Mahotas, com projécteis caídos pelas bermas, estava Vitória Chure, rodeada de gente que tinha vindo ver o que nunca se viu por estas bandas. Debaixo dos escombros da sua casa ainda estavam os corpos de pessoas que ali tinham tentado resguardar-se das explosões. "Tinha algumas pessoas que vinham esconder-se aqui quando o tecto caiu. Morreram. Algumas foram removidas, mas a maioria continua aí dentro", explicou. "Todo o meu dinheiro acabou. Não tenho nada."
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