Norman Rockwell (1894-1978), célebre desenhador americano, era um bom jornalista. Nas capas que fez para a revista The Saturday Evening Post, publicadas durante quase 50 anos, ele contava o quotidiano da América. Num desses desenhos, Rockwell mostrava um balcão de café, onde estavam um polícia e um garoto. O miúdo - o talento do desenhador permitia sugeri-lo - tinha acabado de fugir de casa. O polícia, como quem não quer a coisa, interrogava-o. Todos os que viram aquela capa de Rockwell sabiam que a história acabaria bem...
O lugar dos polícias deve ser esse, a rua (mesmo que esta seja um balcão de café). É aí que se previnem os delitos e se desarmam os crimes. E essa foi a boa conclusão do Ministério da Administração Interna, que decidiu pegar em mais de metade dos polícias que nunca saem à rua e mandou-os para o seu local natural de trabalho.
A decisão é boa, o que não quer dizer que seja fácil de aplicar. O mundo não se faz a partir do zero, constrói-se sobre erros teimosos. Um quinto (nove mil agentes) dos efectivos da PSP e da GNR conhece a rua como o comum dos cidadãos, indo e vindo para o trabalho, não patrulhando-a. Para esses funcionários, ser polícia pode ser consertar sapatos, cortar cabelo, tomar conta do bar da corporação ou ser um simples amanuense que cuida dos recibos de ordenado dos colegas (ver págs. 22 e 23). Tarefas que, concluiu bem o Ministério da Administração Interna, podem ser destinadas a trabalhadores civis que as cumprirão sem precisarem da condição de agentes da ordem.
Porta-vozes da polícia e jornalistas inventaram uma expressão para rua - teatro operacional - que é um pouco grandiloquente. No entanto, a expressão tem de bom o lado dramático que sublinha a função dos polícias. Estes, de facto, não são trabalhadores comuns. Desde logo, gozam da regalia de, em nome de nós todos, poderem impor-nos a ordem. Se não existisse essa prerrogativa, o simples facto de um polícia nos dizer "não vá por aí" - e poder impor isso - seria uma violência tremenda.
A condição especial do agente da ordem permite-lhe, por exemplo, andar armado. Não deixa de ser sintomático, como refere o artigo do DN, que alguns dos polícias agora mandados trabalhar para a rua não peguem numa arma... há 20 anos! Essa situação terá de ser tida em conta, os receios dos mal habituados têm de ser respeitados. Com uma condição: que fique claro que a situação anómala é a anterior e que a nova (e boa) política é para prosseguir. Em direcção à rua.
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