por
Joana de Belém
Vestido de mulher, Fernando Mariano reproduz gestos da vaidade feminina. Finge que pinta os lábios, afaga o cabelo e calça uns sapatos de tacão alto que lhe acentuam a silhueta já coberta por um vestido em tons laranja. Encena uma saída para o exterior, onde é agredida por uns e ignorada por outros, incapazes de lhe prestar auxílio.
O cenário é a rua de Santa Catarina, no Porto, onde o movimento Panteras Rosa - Frente de Combate à LesBiGay Transfobia, organizou, ontem ao final do dia, a intervenção "Gisberta: Morrer Invisível". Uma forma de assinalar um ano desde que foi encontrado o corpo da transexual brasileira, "Gis", três dias depois de continuadas agressões por um grupo de jovens da Oficina de São José - que acabaram por lançá-la a um poço onde morreu afogada.
A transexual não foi esquecida e ontem voltou para dizer: "Meu nome era Gisberta. Fui torturada, violada, assassinada. Para a Justiça eu morri afogada e a culpa foi da água." Fernando Mariano explicou ao DN que a intenção foi relembrar a Gisberta mais mediática, mas também "todas as Gisbertas do País. A discriminação parte de uns que praticam a violência, mas também daqueles que a ignoram. Que pensam: 'isto está a acontecer e não nos faz diferença'".
As Panteras Rosa relembram ainda a "sentença judicial ignóbil" que responsabilizou os jovens em causa por agressão "mas que os iliba de assassinato e tortura, sustentando que a vítima morreu por causa da água que a afogou". Um ano depois, a protecção legal de "pessoas como Gisberta continua inexistente e as condições de marginalização de grande parte da população transexual continuam intocadas, porque os decisores políticos e o Estado continuam a fugir às suas responsabilidades", diz ainda o movimento.
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