por
Diogo Pires Aurélio
Professor universitário
Aparentemente, já não há volta a dar. Os jornais em papel, aqueles com que eu e a minha geração ainda crescemos, estão em vias de se tornar uma coisa do passado, a consultar em bibliotecas, provavelmente só em cópia digital, para não se degradarem tão rapidamente. Podem aqueles que ainda resistem sangrar-se em imaginação e adiar por uns anos, ou mesmo décadas, o fim anunciado. A prazo, porém, nada indica que essa luta, a vários títulos meritória, venha a ser mais do que isso, ou seja, uma luta contra o tempo.
O mais curioso é que o desaparecimento da imprensa escrita era falado há, pelo menos, meio século. Basta ver o que a esse respeito se tem escrito, praticamente desde que existe a televisão. Mas os vários meios de comunicação encontraram sempre, até há não muito tempo, formas de conviverem e até de se complementarem, sem que algum deles ficasse pelo caminho. E a verdade é que, por maior que fosse o alarmismo que se fez ouvir ao longo destes anos, os jornais conseguiram sobreviver, se não prosperar, como a arte, a literatura e tantas outras coisas a que de igual modo se prognosticou a morte durante a segunda metade do século passado.
Há quem julgue que ainda estamos nessa fase. O que não falta, de resto, é gente a apontar o dedo aos alegados vícios de que enferma a imprensa e que estariam a impedir a sua recuperação. É o mau jornalismo, diz-se; é a total dependência das fontes, sugere-se; é a falta de independência ou de qualidade dos articulistas, acusa-se. Como se, extirpados esses e outros males que toda a gente parece agora ver na imprensa, ela pudesse voltar de novo aos míticos anos de expansão e influência...
Não haja, contudo, ilusões: o número de leitores tem vindo a descer, consistentemente, desde há quase uma década! Segundo os entendidos, os principais jornais, em todo o mundo, perdem dinheiro de segunda a quinta-feira. Não é, portanto, difícil de prever que, dentro em pouco, eles estarão a fazer edições em papel só ao fim-de-semana. E, no dia em que a rigidez dos ecrãs de computador for ultrapassada, o que parece estar para breve, e começarmos a dispor de informação em suporte manipulável como é o papel e actualizada ao segundo, o velho conceito de "quotidiano" ficará sem sentido. Infelizmente para todos os que iremos sentir saudades, a única dúvida que resta, neste momento, é se é daqui a dez ou daqui a 20 anos.
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