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economia

'Inflação pessoal' pode variar entre 1,9% e 5,4%

por

Sérgio Aníbal  

A taxa de inflação é o indicador estatístico em que as pessoas menos confiam. Seja qual for o ponto do globo e por muito credível que seja a entidade responsável pelas estatísticas, é difícil para grande parte da população aceitar que os preços apenas cresceram aquilo que o indicador oficial diz.

Portugal não é excepção. O Instituto Nacional de Estatística (INE) anunciou recentemente que a taxa de inflação média durante o ano passado se cifrou em 3,1%, um valor que fica acima dos aumentos salariais na função pública, mas abaixo da evolução dos salários do sector privado medidos com base nas contribuições para a Segurança Social. Esta reduzida diferença entre salários e inflação parece surgir em contradição com o que é a sensação geralmente aceite de agravamento do custo de vida em Portugal durante o último ano. Existem várias razões para esta diferença entre o indicador de inflação e a percepção de variação dos preços que as pessoas têm. Mas uma das explicações está na forma como a própria taxa de inflação é calculada.

O INE tenta captar, como não podia deixar de ser, a evolução dos preços de um cabaz de produtos que corresponda, em média, aos hábitos de consumo de toda a população portuguesa. No actual Índice de Preços no Consumidor (IPC), por exemplo, assume-se que o português médio gasta 6,7% do seu orçamento em vestuário e calçado, 20,3% em transportes e 3,1% em bebidas alcoólicas e tabaco. Não é difícil concluir que muitos portugueses têm hábitos de consumo bastante diferentes destes valores médios e que, por isso, são afectados por uma "taxa de inflação pessoal" diversa da oficial.

Algumas simulações, calculando as taxas de inflação para padrões de consumo que fujam do que é a média, permitem perceber, muito rapidamente, que existem partes da população que estão a suportar uma variação de preços bastante mais acentuada do que a média. E outros casos, em que padrões de consumo que dão um maior peso a produtos com variações de preços moderadas acabam por gerar "taxas de inflação pessoais" bastante mais baixas.

Tendo em conta o que foi a evolução dos preços durante o ano de 2006, uma pessoa que tenha dado no seu orçamento uma maior prioridade a a bens como o tabaco, as bebidas alcoólicas, a gasolina ou a educação sofreu bastante mais do que a média com as subidas de preços registadas. É que nestes produtos as pressões inflacionistas fizeram-se sentir de forma muito mais acentuada, quer por via de agravamentos fiscais, quer pelo simples funcionamento do mercado. Entre os menos afectados pela inflação, estão aqueles que têm a sorte e podem assumir a opção de consumir em maiores quantidades produtos com uma evolução benigna dos preços, como é o caso das comunicações (com destaque para os telemóveis), o vestuário e calçado ou os bens ligados ao lazer, recreação e cultura.


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