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A. H. Oliveira Marques: histórias de Portugal

por

José Medeiros Ferreira jmedeirosf@clix.pt

Professor universitário  

A vida tem dessas coisas. Quando da preparação da saída do meu último livro, Cinco Regimes na Política Internacional, acertei com o dr. Francisco Espadinha um acto de lançamento em que o orador principal seria o meu antigo mestre, o historiador Oliveira Marques. A sugestão, imediatamente aceite pelo dinâmico editor da Presença, destinava-se, no meu espírito, mais a homenagear o fundador da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa do que a promover o livro. Algo me dizia que estava na hora de tirar A. H. de Oliveira Marques do seu silêncio. Infelizmente já depois de tudo praticamente acertado sobreveio a crise de saúde e o falecimento na passada semana do historiador português com mais métier da segunda metade do século XX. Bem sei que há Vitorino Magalhães Godinho e José Mattoso, mas nenhum deles mudou de época de estudo e de especialidade com a mesma segurança e utilidade para a comunidade científica e cívica.

De facto, Oliveira Marques, que se iniciou na História Medieval com Virgínia Rau, e que no início dos anos 60 marcava o território historiográfico como medievalista, é levado alguns anos mais tarde para o estudo da I República por motivos cívicos.

A sua atitude discreta, mas firme e persistente, de apoio aos estudantes na grande crise de 1962, levá-lo-ia a ficar mal visto pelos poderes estabelecidos, que aproveitaram o primeiro pretexto para o lançar para fora da universidade.

É então que surge a possibilidade de ser o biógrafo de Afonso Costa, contando para isso com uma bolsa desencantada pelo velho Ribeiro dos Santos e com o arquivo da família daquele protagonista. Sei isto porque, por essa altura, tinha sido expulso de todas as universidades do País e Salgado Zenha havia pensado em mim para o mesmo fim...

O seguro medievalista deu então um salto no tempo como historiador. Nos meados dos anos 60 não havia em Portugal nem réstia do que se pudesse considerar uma escola de História Contemporânea. Apenas Joel Serrão mantinha uma abertura para a época e reunia estudiosos e curiosos à volta das "entradas" mais próximas da actualidade no Dicionário de História de Portugal. Pois Oliveira Marques inaugurou o trabalho científico sobre a História Contemporânea Portuguesa, transitando da biografia documentada de Afonso Costa para a elaboração de autênticos manuais sobre o período republicano.

Num terreno tão virgem, e inóspito, a via traçada pelo historiador, que entretanto passara pelo circuito das universidades norte- -americanas, não podia ser mais útil e segura: ele carreia o máximo de informações sobre os dados estruturais do período desde a demografia aos indicadores económicos e onde nem faltam as listas cronológicas de governantes d'aquém e d'além-mar.

Obras como História da República Portuguesa, Portugal, da Monarquia para a República marcam o período e são referências seguras. Todos as consultam, assim como a sua História de Portugal.

É o trabalho pioneiro de Oliveira Marques que sacode a apatia do meio académico e político: a República ficara com a má imagem dos factos, explorados pela propaganda dos anti-parlamentaristas. E era encarada pelos marxistas como um período de dominação burguesa sobre a classe operária. A Igreja mais evoluída preferia o silêncio sobre I República. Eram muitas as resistências a vencer. E as críticas feitas à obra de A. H. de Oliveira Marques concentraram-se no lado positivista com que abordara de uma forma primeira o estudo da História do Século XX Português. Ainda hoje muitos dos trabalhos que se publicam se fazem tendo em conta, mesmo que para o combater, o legado de Oliveira Marques. António Costa Pinto bem o assinalou sábado neste DN.

Eu, que o havia conhecido como assistente na Faculdade de Letras, e me cruzara com ele no edifício da ONU em Genebra quando ambos trabalhávamos nos arquivos da SDN [Sociedade das Nações], devo--lhe o apoio que deu à minha entrada na Faculdade de que fora presidente da Comissão Instaladora até 1980.

Aliá, a sua estratégia de recrutamento de docentes para a FCSH permitiu o elevado grau de qualidade desta na fase de arranque. Mais tarde viria a ser vítima de animosidades insuspeitadas e de sectarismos latentes, que o levaram a refugiar-se num Departamento de Estudos Anglo-Saxónicos antes da jubilação...

Imagino a amargura que esse fim terá provocado nele, vítima mais uma vez do ostracismo votado em Portugal aos verdadeiramente diferentes e melhores...

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