por
Miguel Gaspar
O referendo sobre o aborto colocou de novo em cima da mesa a questão de saber se um órgão de comunicação social pode ou não tomar partido, deve ou não assumir uma posição. A Rádio Renascença deu esse passo há meses. Ao fazê--lo, assumiu também um compromisso com o ouvinte, a saber que a posição da rádio católica não interferiria com a isenção das notícias.
Tomar ou não tomar partido, assumir ou não uma causa, apoiar ou não uma candidatura política são uma tendência latente há vários anos nos media portugueses mas apenas esporadicamente consumada. Faz sentido lembrar, a este propósito, o vasto número de títulos de jornais partidários ou "alinhados", incluindo diários, que jaz no cemitério da imprensa portuguesa. Portugal Hoje, O Diário, ou O Dia são exemplos de como acabou a ilusão de um jornalismo partidário dos anos 70. Quem os derrotou foi o Correio da Manhã - diário que recentemente mudou o seu estatuto editorial para nele introduzir o princípio da "defesa da vida" -, que antecipou em mais de uma década o molde que viria a triunfar na televisão privada.
O problema de um media tomar ou não partido não está no facto de tomar partido, mas sim na capacidade em permanecer jornalisticamente credível apesar de tomar partido. Para o senso comum lusitano este argumento não faz sentido. Eu nunca deixei de ler um jornal por razões ideológicas. Rejeito panfletos, evidentemente, mas também jornais que transformam as notícias na confirmação de posições ideológicas. Sendo certo que não existe informação bacteriologicamente pura e isenta, o que continua a fazer a diferença é a qualidade do jornalismo que se pratica. Tomar ou não posição é uma opção, não é um imperativo de uma redacção. Mas a qualidade do jornalismo já não é opcional - neste caso, quem decide é o leitor e não o jornalista.
Continuo a acreditar que a qualidade é a principal arma para ganhar espaço no mercado. Mas talvez o que neste momento está errado com a imprensa escrita seja a dificuldade em encontrar o papel certo para desempenhar. Ou seja, em assumir uma identidade e uma agenda - o que não signfica necessariamente escolher entre A e B, mas também significa ir além do simples reportar dos factos. Precisamos, sobretudo, de um jornalismo que interpele.
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