por
Abel Coelho de Morais
O ponteiro dos minutos do relógio do Apocalipse ficará mais perto da meia-noite a partir de quarta-feira, dia 17. Este relógio assinala o grau de probabilidade de uma crise nuclear e passará a marcar seis minutos para a hora zero.
A decisão foi ontem anunciada pela direcção do Boletim dos Cientistas Atómicos (BCA) e reflecte a preocupação com a emergência de "uma segunda era nuclear". Esta caracteriza-se pelas ambições nucleares do Irão, Coreia do Norte e outros países, a degradação das condições de segurança nas instalações nucleares da Federação Russa e de vários estados da ex-União Soviética, a possibilidade de actos terroristas com recurso a armas nucleares, além do facto de Washington e Moscovo manterem em estado de prontidão imediata milhares de vectores nucleares. O facto de a energia nuclear para fins civis conhecer hoje de novo acentuado interesse como alternativa para neutralizar a escalada do preço das fontes de energia tradicionais é também interpretado como factor adicional de risco.
O Boletim promove quarta-feira uma cerimónia simultânea, em Washington e Londres, para assinalar a mudança no relógio do Apocalipse dos sete para os seis minutos para a meia-noite. Esta será a 17.ª alteração no relógio, desde que foi criado em 1947 por um grupo de cientistas envolvido no Projecto Manhattan - as bombas atómicas lançadas sobre o Japão em 1945 - e que esteve também na origem da edição do BCA. O relógio procura traduzir a ideia de apocalipse - do fim do mundo como o conhecemos, simbolizado pela hora zero - cuja probabilidade aumenta ou diminui à medida que o ponteiro dos minutos se aproxima ou distancia da hora do Apocalipse.
O relógio é, desde os tempos da Guerra Fria, reconhecido como um indicador credível do nível de iminência de uma crise nuclear ou de um confronto militar de consequências imprevisíveis. A decisão de alterar o ponteiro dos minutos é tomada pela direcção do BCA, depois de ouvido o Conselho da publicação, que integra, entre outros, 18 distinguidos pelo Prémio Nobel em áreas relevantes nesta matéria.
O relógio esteve mais perto da meia-noite em duas ocasiões. Em 1953, apenas a dois minutos, época em que EUA e ex-URSS realizam testes termonucleares, com um intervalo de nove meses entre cada um; e, em 1984, quando se inicia a escalada nuclear entre Washington e Moscovo, que culminará na desagregação do bloco soviético, em 1991. Neste ano, o relógio marca 17 minutos para a meia-noite. A maior distância registada até hoje.
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