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O cardeal do dia seguinte

por

Fernanda Câncio

fernanda.m.cancio@dn.pt  

José Policarpo é um homem surpreendente. Há mês e meio, dizia que a Igreja Católica (IC) não se devia envolver "activamente"na campanha do referendo e que quem tivesse dúvidas devia abster-se. Agora, decidiu escrever um texto por semana sobre o assunto. O primeiro, datado de 7 de Janeiro, faz revelações extra- ordinárias, entre as quais se conta o facto de o cardeal-patriarca considerar que a alteração proposta no referendo não se justifica porque "o cruzamento dos métodos anticonceptivos com os métodos abortivos e as soluções químicas para a interrupção da gravidez" diminuiu "a realidade do aborto de vão de escada"e trouxe "a decisão de abortar para o campo da liberdade pessoal e da consciência".

Valerá a pena dissecar tais afirmações. É sabido que o catecismo católico rejeita a generalidade dos métodos anticonceptivos, incluindo o preservativo, considera a pílula do dia seguinte um horror e é contra todas as formas de aborto, químicas ou cirúrgicas - o anterior papa comparou-as ao Holocausto, o actual ao terrorismo. O que Policarpo está a enumerar são portanto - só podem ser - para si barbaridades, a pior das quais decerto "a solução química para a interrupção da gravidez".

Seja tal solução química traduzida como a pílula do dia seguinte (sempre mencionada pela IC como "abortiva") ou o misoprostol, remédio para o estômago cuja utilização caseira tem tido consequências crescentemente visíveis nas urgências dos hospitais e nos tribunais (dois dos casos mais mediatizados de acusações de aborto foram relativos ao seu uso por adolescentes "apanhadas" por via de hemorragias que as teriam matado se não fossem socorridas), não se percebe como pode o cardeal usá-la como justificação sem incorrer em insanável contradição, muito menos invocá-la para alegar que "diminuiu o aborto de vão de escada".

Por fim, que "decisão de abortar" pode ser trazida "para o campo da liberdade pessoal", quando a lei que existe a criminaliza? Será a liberdade de cometer um crime no quarto dos fundos, de abortar e sofrer as consequências? Estranha noção de liberdade, estranha forma de caridade. De tal forma estranhas que se diria estar José Policarpo a alinhar argumentos a contrario, como quem expõe as suas dúvidas. Ou antecipa o dia seguinte.


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