por
Ruben de Carvalho
Jornalista
rubencarvalho@mail.telepac.pt
O Porto foi na passada semana cenário de um original evento. A Câmara Municipal do Porto fez inserir em vários jornais um anúncio de apreciáveis dimensões para anunciar a deveras importante coisa de que no dia 6 de Janeiro próximo passado se realizaria uma sessão, evidentemente solene, no salão nobre da câmara, sessão essa que celebraria a magnífica efeméride de terem decorrido cinco anos sobre o facto de o dr. Rui Rio presidir aos destinos da edilidade! Contra o que seria de recear, a temática das orações do dr. Rio e do convidado Luc Ferry ("escritor, filósofo e político francês", segundo as gazetas) apresentou uma total coerência com o absurdo da realização: o primeiro falou - ainda segundo a imprensa - sobre "a crise da democracia representativa" e o segundo auxiliou com uma oração com o título O Desapossamento Democrático. Linhas muito gerais, segundo Rio os "poderes fácticos" da nossa sociedade, com destaque para a Comunicação Social, são os responsáveis pela referida crise; para Ferry, não é exactamente isso, a principal culpa é da globalização e da Internet. Parecem contudo as visões francamente distorcidas: o que se passou é, isso sim, um excelente exemplo da responsabilidade dos políticos no problema. Na verdade, a que propósito é que a câmara do Porto - um órgão colectivo onde estão, por democrática vontade do eleitorado, representadas várias forças partidárias - resolve comemorar o facto de um tal cidadão ser há cinco anos seu presidente?! Faria algum sentido que o PSD, p. ex., realizasse uma sessão ou 20 para comemorar que um seu militante fosse presidente de uma autarquia há um ano, há cinco anos, há três anos, há dois meses, há duas horas... Não parece particularmente a propósito, salvo por razões decimais, escolher os cinco anos, mas o PSD ou qualquer outra força política é livre de escolher as efemérides que entender. Mas que razão tem a câmara para celebrar o facto de o dr. Rui Rio estar lá há cinco anos?!! Como é evidente, esta "celebração municipal" acabou por ser uma indecorosa operação exclusiva do PSD, nela não tendo comparecido, com toda a coerência e lógica, praticamente nenhum eleito de outro partido. Assistiu-se assim pura e simplesmente a uma abusiva utilização partidária de uma instituição democrática. Assim se gera a crise da democracia, assim se desapossam os cidadãos da sua democracia.
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