por
Luciano Amaral
Professor universitário
O mundo é engraçado. James Baker III faz parte daquelas pessoas normalmente odiadas pelas almas boas do planeta. Esteve nas administrações Reagan e Bush (o velho), e foi, nesta, secretário de Estado (o equivalente ao nosso ministro dos Negócios Estrangeiros). Que o mesmo é dizer, foi nessa altura a besta negra universal. Era ele a face da política externa na Guerra do Golfo (a de 1991) e um dos símbolos das relações privilegiadas da América com a monarquia absolutista saudita. Uma das brincadeiras de muita gente nos últimos anos foi mostrar a fotografia de Rumsfeld a apertar a mão a Saddam em Bagdad. Deve haver imensas de Baker com facínoras equivalentes. Como pôde semelhante criatura passar a nova coqueluche da bondade planetária? Bastou-lhe uma coisa simples: criticar um presidente americano em exercício.
A crítica vem, está claro, no famoso relatório do Iraq Survey Group, a panaceia fantástica que, com base nos princípios do "realismo", iria mostrar como se lida com o problema do Iraque. A gente lê o relatório e espanta-se. Espanta-se com a ausência de ideias, mas sobretudo espanta-se como a ausência de ideias foi tão encomiasticamente recebida por esse mundo fora. As recomendações do relatório podem dividir-se em dois tipos. Umas são as que repetem a política da Administração: retirar os soldados americanos assim que possível, mas sem precipitações (que é o que Bush anda a dizer que vai fazer desde que lá os pôs); "iraquizar" as forças militares no território (que é o que Bush anda a fazer desde que ganhou a guerra convencional); construir um Iraque democrático e sólido (que foi o que Bush disse querer fazer desde 2003).
As outras recomendações são as que falam de uma "Nova Ofensiva Diplomática" para o Médio Oriente. O que impressiona nestas é, precisamente, o irrealismo. Uma aponta para a construção de um "novo consenso alargado" sobre o Iraque, envolvendo todos os principais países da região num Iraq International Support Group. Todos? Sim, todos menos Israel. Como se fosse realista excluir Israel da discussão, na presunção já de si benevolente de que uma discussão envolvendo aquela colecção de Estados seja realista. Outra aconselha à negociação directa com a Síria e o Irão, para que larguem os seus factotes iraquianos. Porque, diz o relatório, "nenhum país tem interesse na instabilidade do Iraque". Ou seja, os países que mais o têm instabilizado não têm, afinal, interesse nisso. De tão obviamente irrealista, esta sugestão só pode estar fundada em qualquer coisa mais substancial. E na realidade está. Só que, mais do que realista, o raciocínio é aqui profundamente cínico. Em troca do apoio da Síria e do Irão no Iraque, os EUA deveriam relançar o "processo de paz israelo-árabe". Mas os termos desse relançamento chegam a ser chocantes. Israel (que, lembre-se, não participaria no dito support group) deveria estar disposto a ceder os montes Golã à Síria, mesmo se isso significa deixar a maior parte do seu território à mercê da artilharia síria. E deveria ainda estar disposto a conceder o "direito de retorno" aos "refugiados palestinianos", mesmo que isso seja a destruição de Israel por outro meios. De forma interessante, em nenhum momento pede o relatório que os inimigos de Israel reconheçam o direito de Israel a existir. Ou seja, o "realismo" da comissão resume-se ao seguinte: quem paga pelas dificuldades americanas não são os EUA, é Israel, o seu mais sólido aliado na região. Tudo isto embrulhado na ideia extraordinária de que o problema do Iraque apenas se resolve quando se resolver o problema israelo-árabe. Quer dizer, o problema israelo-árabe é um dos mais intratáveis da situação internacional, que anda há 60 anos para ser resolvido. Se a resolução do problema do Iraque está dependente dessa solução, mais vale esperarmos sentados outros 60 anos. Era este o contributo que o "realismo" tinha a dar? Mais valia que nunca o tivesse dado.
Agora resta saber qual o impacto deste documento desastroso e desnecessário na condução da guerra pelo Presidente Bush. Porque a verdade é que ele não oferece qualquer substituto à única estratégia que, no final de tudo, ainda sobra: vencer a guerra. O que ele demonstrou, efectivamente, foi a vacuidade das "soluções" de democratas e "realistas", cujas críticas se revelaram afinal irrelevantes. Daí que a democratas e "realistas" não lhes restem agora senão duas opções: ou se juntam ao Presidente num esforço decisivo para impor a vitória no Iraque ou pressionam-no para que ele retire as tropas. Curiosamente, estas são também as mesmas opções do Presidente, que ou consegue formar um "consenso bipartidário" no sentido de concretizar o tal esforço ou se convence de que ele é escusado e as tropas devem sair. Ora, se não é para seguir a primeira opção, então mais vale a retirada imediata. Permanecerem por lá tropas com data marcada, apenas a gerir a situação corrente, limita-se a piorá-la, apenas adiando o inevitável.
Galp com lucros de 251 milhões de euros em 2011
Banca e Galp provocam sessão negativa da bolsa de Lisboa
Estado paga mais um ano a trabalhadores do BPN
Excesso de confiança na tecnologia afeta vida social
Passos diz que políticos portugueses não são bem pagos
Tribunal inicia julgamento de suspeito de homicídio
Feira do sexo quer ser "mais didática"
Carnaval é "batalha perdida para o Governo", diz Marcelo
Dados europeus desmentem subida de abortos em Portugal
1500 polícias desistem da farda em três anos
UE impõe condições para Grécia obter resgate
Seguro exige explicações de Passos sobre ajuda externa
Santana para Rosas: "Salazar é a sua tia!"
80 mil abortos 'por opção' desde 2007, 13 mil reincidentes
Gestores da TAP, RTP e CGD escapam a tetos salariais
Schulz justifica-se em português no Twitter
Ahmadinejad convida Bento XVI a visitar o Irão
Se Passos não vem à AR "alguma coisa quer esconder"
Ajustamento do plano de ajuda financeira a Portugal é inevitável?
Feira do Livro
Guia Indispensável do Emprego
O número de leitores do DN aumentou 27%
Todas as Iniciativas DN