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O sonho comanda a vida

por

José Carlos Abrantes provedor2006@dn.pt  

Recebi de Filipe Moura, professor do Instituto Superior Técnico (Departamento de Matemática) a seguinte reflexão: "Passaram cem anos sobre o nascimento de Rómulo de Carvalho, e quem mais se evidenciou nas comemorações foram entidades sob a tutela do Ministério da Ciência, como o Pavilhão do Conhecimento. Quem em sua homenagem instituiu o dia do seu nascimento como o Dia Nacional da Cultura Científica foi o Ministério da Ciência. Rómulo de Carvalho foi um notável humanista, com obras publicadas em diversos domínios. A sua poesia, que assinou com o pseudónimo de António Gedeão, é só uma componente (notável, é certo) da sua obra. Mas o que verdadeiramente o distingue e o torna único é a sua actividade enquanto pedagogo e (sobretudo) divulgador científico. O autor de livros como AFísica no Dia-a-Dia não deixou, em Portugal, sucessor. Por tudo isto é muito lamentável (e verdadeiramente redutor) que o Diário de Notícias, tendo tido a iniciativa de evocar a sua obra, passe completamente ao lado desta sua faceta. Daí a evocação vir na secção de Artes e não na da Educação, na ausência de uma secção de Ciência. Neste jornal, de resto, é mais fácil ler-se uma crítica às exposições patentes no Centro Pompidou ou no Museu Guggenheim de Bilbau do que no Pavilhão do Conhecimento, onde podemos encontrar módulos semelhantes aos da Cité des Sciences de Paris e exposições itinerantes das melhores da Europa. Por onde passam, estas exposições despertam a atenção da imprensa de referência. Menos do Diário de Notícias. Não quero com isto responsabilizar os jornalistas ou quem tem a missão de escrever sobre ciência neste jornal (que acredito que faça o seu trabalho da melhor maneira que pode). A questão é mesmo de critérios editoriais. Para o Diário de Notícias, Rómulo de Carvalho não interessa. Só interessa o António Gedeão."

António José Teixeira, director do jornal, teceu as seguintes considerações: "Todos os dias chegamos à conclusão de que poderíamos fazer melhor o nosso trabalho. Acontece em todos os ofícios. Recentemente, abordámos por duas vezes o centenário de Rómulo de Carvalho. Fizemo-lo com profissionalismo e qualidade, porventura sem nos determos com suficiência na sua obra científica. Pedimos depoimentos, nomeadamente de Marcelo Rebelo de Sousa, sobre a sua faceta pedagógica. Recebemos, aliás, um elogio da família de Rómulo de Carvalho pelo trabalho divulgado. Concordo com o leitor quanto ao interesse em dar mais espaço à ciência."

Não compete ao provedor propor critérios diferentes dos que a direcção, com plena legitimidade, institui para o jornal. No entanto, também não se vislumbram razões para que este debate não possa ser feito e tornado público. O leitor terá razão por o jornal não ter dado destaque suficiente à actividade científica de Rómulo de Carvalho. Mas, para a geração que viveu a ditadura, poemas como "Galileu", "Luísa sobe a calçada" e "Eles não sabem nem sonham que o sonho comanda a vida" são memórias que não podem ser menorizadas. Muitos sentirão que, socialmente, a poesia de Gedeão foi tão significativa como foi a obra de divulgador científico e pedagogo, sendo esta de qualidade ímpar. Mas como poderíamos festejar a dinâmica de hoje, na ciência, se os condicionamentos à liberdade não tivessem sido derrubados? O que conta é que os seres humanos são múltiplos e é nessa multiplicidade que devem ser encarados os seus contributos. Um homem de ciência, Carlos Fiolhais, também pensa desta forma: "Rómulo de Carvalho fez de facto tudo (ou melhor, quase tudo, o quase é para ser tão rigoroso quanto ele foi em tudo quanto fez). Ele foi professor de ciências, pedagogo, historiador de ciência e de educação, divulgador de ciência, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista plástico, fotógrafo, marceneiro, etc. E foi bom em tudo o que fez. É muito difícil, se não mesmo impossível, dizer o que ele fez melhor." Por outro lado, também não é seguro que o Rómulo cientista e divulgador não tenha os seus continuadores na época actual. O mesmo Carlos Fiolhais considera que "há 'filhos' muito activos do Rómulo, seus alunos, como por exemplo Nuno Crato e João Caraça. Rómulo foi um homem isolado quando a ciência estava isolada e hoje, graças em grande parte a ele, a ciência rompeu o isolamento." Percebo que Carlos Fiolhais não se inclua a si próprio. Mas o seu nome fica bem na galeria desses sucessores. Aliás, em fins de Novembro, o Prémio Rómulo da Carvalho foi-lhe atribuído pela Universidade de Évora "tendo em conta a sua assinalável obra de divulgação da cultura científica e pelos seus contributos para o Ensino e História da Ciência". (1)

A resposta de António José Teixeira põe em relevo alguns aspectos essenciais do trabalho empenhado e profissional: sabemos sempre que podemos fazer melhor, reconhece o profis- sionalismo e a qualidade do que foi feito, embora admitindo que a perspectiva sublinhada pelo leitor possa ter sido insuficientemente trabalhada. Por último, confessa o interesse em dar mais espaço à ciência. Esperemos que tal interesse possa ser concretizado nas páginas do jornal.

(1) http/www.cienciahoje.pt/index.php?oid=9709 &op=all


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