por
Paula Martinheira
Sandra Sousa Santos
Na memória de dona Rosa Sequeira, 62 anos, ainda estão bem vivas as visitas que a biblioteca itinerante da Gulbenkian fazia à aldeia onde nasceu e sempre viveu, Gomes Aires, no concelho alentejano de Almodôvar. "Requisitava muitos romances na altura. Sempre era qualquer coisa para entreter, já que nesta terra não há nada para fazer, a não ser trabalhar." Lamenta, por isso, que aquele serviço tenha deixado de percorrer os montes e povoações do município "já lá vão mais de 30 anos".
Ao sentimento de nostalgia dos tempos idos depressa sucede um enorme sorriso de satisfação, ao mostrar ao DN o livro que acabara de requisitar na Biblioteca Itinerante de Almodôvar, nesse dia a efectuar a sua viagem inaugural. A opção de Rosa Sequeira recaiu no livro Filhos do Vento, de Francisco Moita Flores, "aquele senhor muito bem falante que aparece na televisão". "Espero que escreva tão bem quanto fala", diz, enquanto espera pelo neto, de quatro anos, que com as restantes 20 crianças de Gomes Aires revolve as prateleiras da carrinha transformada em biblioteca, à procura de um "livro de bonecos, que eu não sei ler".
"Democratização da cultura"
Encostado à porta do café da praça central da aldeia, que os locais apelidam de "Praça de Espanha", Constantino Piçarra, director da Biblioteca Municipal de Almodôvar e principal dinamizador do novo serviço de leitura itinerante, assiste ao decorrer das operações com visível satisfação. "Aqui está um verdadeiro processo de democratização da cultura", sustenta, sublinhando que "este também é um projecto de resistência à desertificação do Alentejo". "Fecham uma escola (este ano foram três) e nós colocamos uma biblioteca itinerante na localidade onde o estabelecimento foi encerrado." É que, argumenta, "os cidadãos que vivem em locais isolados, alguns de difícil acesso, têm tantos direitos como os outros. Porquê impedi-los de ler, ver um DVD, ouvir um CD de música? Só porque a biblioteca-mãe está a muitos quilómetros de distância? Nós vamos proporcionar-lhes tudo isso", assegura.
Uma garantia concretizada na primeira paragem do périplo da carrinha/biblioteca, Corte Zorrinho, uma povoação com cerca de cem habitantes, na maioria idosos. A professora Maria da Encarnação Martins, da escola local, composta por escassos seis alunos, estava avisada da visita e a criançada quase se digladiava para levar os "livros mais bonitos". E enquanto Dulce Romana e Clarisse Brito, as duas funcionárias da biblioteca, sem mãos a medir, faziam ver aos meninos que cada um só podia requisitar três unidades, ajudando-os nas escolhas, o senhor Manuel António Emídio, de 73 anos, entrou de mansinho na carrinha, disposto a "levar qualquer coisa para ler, que já há muito tempo não ponho os olhos em cima de um livro". "Pode ser um livrinho simples, pequenino, que não dê muito trabalho a ler." "Não está interessado na biografia do José Mourinho?", sugere uma das funcionárias. "Ah, se fosse alguma coisa sobre o Sporting...". A biblioteca não tem nada para oferecer sobre o clube de Alvalade e o senhor Manuel Emídio vai-se embora. Realizado, contudo, já que acabou por levar o Breve Roteiro Fotográfico - Lisboa, 25 de Abril de 1974, da autoria de Alfredo Cunha, Eduardo Gageiro e José Antunes. "Se a biblioteca vem cá, nós levamos um livro e este sobre o 25 de Abril deve ser bom."
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