por
José Carlos Abrantes
provedor2006@dn.pt
No dia 16 de Setembro, um sábado, o DN noticiou que Henriques Gaspar, juiz vice-presidente do Supremo Tribunal de Justiça, poderia vir a ser o novo procurador-geral da República. No mesmo dia, a SIC Notícias, usando o DN como fonte, repetiu várias vezes a mesma informação. Posteriormente, um desmentido oficial foi publicado e o novo procurador-geral anunciado foi Pinto Monteiro. O assunto teve alguma repercussão na blogosfera . No entanto, o provedor não recebeu reclamações dos leitores. Tendo iniciativa própria, questionei o jornal. O director adjunto, Eduardo Dâmaso, enviou-me a seguinte resposta: "A manchete em causa desdobra-se em duas informações relevantes: PS e PSD acertaram perfil do PGR e um dos nomes que encaixavam no dito era o do magistrado Henriques Gaspar. A informação foi cruzada por fontes dos dois partidos e do Governo. Também foram contactadas outras fontes do sistema judicial. Os jornalistas que escreveram a notícia tinham, naquele momento, uma fortíssima convicção e certeza quanto à veracidade da primeira informação (PS e PSD acertaram perfil). No dia seguinte, o Governo veio dizer que essa informação era especulativa, mas em nenhum momento o PSD e o seu líder a desmentiram. Como se comprova, o perfil do nomeado corresponde ao noticiado: um magistrado judicial.
Quanto ao nome do dr. Henriques Gaspar, foi dito que o seu perfil correspondia ao quetinha sido traçado pelos dois partidos e pelo Presidente, mas reconhecemos que em algumas passagens do texto acabou por ficar uma formulação ambígua, permitindo retirar a ilação de que ele seria o próximo PGR. Na primeira página escreveu-se que o nome correspondia apenas ao perfil, mas naquele contexto é difícil defender que os leitores não tenham assimilado a ideia de que estávamos a noticiar o nome do próximo PGR. O mesmo se pode dizer do título da página 2. Não fomos felizes, embora tenhamos razões para acreditar que, quando escrevemos, estávamos a ser fiéis às informações de que dispúnhamos. Não procurámos fazer nenhum sensacionalismo nem fomos manipulados."
Acredito que não. O jornalismo é uma profissão de risco, mesmo quando funcionam os cuidados editoriais de uma redacção profissionalizada. No dia-a-dia, as informações veiculadas são fidedignas, embora muitas vezes dadas sob pontos de vista diferentes. Ainda recentemente, numa estação de rádio portuguesa, ouvi como a última corrida de Fórmula 1 foi noticiada: num jornal brasileiro destacou-se a vitória de Felipe Massa, piloto do país irmão , mas o El País destacou a vitória do espanhol Fernando Alonso, sagrado campeão do mundo nessa corrida. Já um jornal italiano centrou a sua atenção em Schumacher, alemão que nada conquistou na corrida, mas que se retirou naquela prova e é dono de um currículo invejável . Os redactores brasileiros, espanhóis e italianos descreveram o mesmo acontecimento, valorizando aspectos que consideraram mais pertinentes para os seus leitores. O caso que nos ocupa é diferente: o exemplo de cima refere diferentes protagonistas, todos implicados num acontecimento. Neste caso, aponta-se um nome, de modo que os leitores considerem verosímil, mesmo certo, o nome do futuro titular de um importante cargo. Afinal, as informações que pareciam verdadeiras num dia revelam-se infundadas nos dias a seguir. Terá o jornal tomado todas as precauções que deveria ter tomado? Não foi o caso.
Na resposta do director adjunto não se vislumbra que algum dos jornalistas tenha confrontado o juiz Henriques Gaspar com a nomeação iminente. Este, por mim solicitado, informou-me que não foi contactado nem por quaisquer entidades oficiais nem por nenhum jornalista. De facto, Kafka não conseguiria melhor. Um cidadão acordar procurador nas páginas de um diário respeitado não é frequente nem será fácil de gerir. O Código Deontológico dos Jornalistas estatui no seu artigo 1.º : " O jornalista deve relatar os factos com rigor e exactidão e interpretá-los com honestidade. Os factos devem ser comprovados, ouvindo as partes atendíveis no caso. A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público." O que levará os jornalistas a esquecer este bê-á-bá? A ingenuidade? O tempo apressado? Alguma displicência? Uma notícia sobre a "nomeação" de um dos mais importantes rostos da justiça em Portugal não deveria levar a considerar os interesses atendíveis do eventual nomeado? De onde brotou a informação que o DN credibilizou?
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