por
Fernando Madaíl
Criticando a actual "ofensiva visando o branqueamento do fascismo", numa sessão evocativa dos 70 anos da abertura do campo de concentração do Tarrafal, realizada ontem, em Lisboa, Jerónimo de Sousa fez um paralelo com outra, "da mesma família, traduzida na sucessiva adopção de práticas e na crescente aprovação de leis que trazem à memória esses tempos sombrios".
Questionado acerca desta comparação, o secretário-geral do PCP lembrava que "nem sempre é em marcha a passo de ganso" (característica das tropas hitlerianas) ou "com hordas nazis" a entrar nas cidades que se impõe o fascismo. "Muitas vezes começa-se devagar", acrescentava, embora esclarecendo logo não pretender afirmar que, neste momento, "se está a caminhar para o fascismo" em Portugal.
Na sua leitura, há, contudo, "sinais inquietantes". E dava exemplos no próprio discurso: "actos aparentemente isolados de intimidação e repressão em centenas de empresas, de proibição de propaganda eleitoral e partidária, proibições de venda do Avante!, lei dos partidos e de financiamento dos partidos [o PCP entende que este diploma foi elaborado contra a Festa do Avante!], leis eleitorais negociadas entre partidos de política única - são factos que apresentam um fio condutor em colisão com o regime democrático e as liberdades consagradas na Lei Fundamental do país".
Falando junto de três dos cinco sobreviventes que estrearam o terrível campo penal cabo-verdiano - o histórico dirigente comunista Sérgio Vilarigues e dois envolvidos na Revolta dos Marinheiros, Joaquim Teixeira e José Barata -, evocou os 340 resistentes que, durante 19 anos, ali somaram "2000 anos, 11 meses e 5 dias de prisão". E também lembrava "os 32 resistentes antifascistas assassinados no campo da morte lenta", dando como exemplos desse "crime premeditado" o dirigente anarco-sindicalista Mário Castelhano, o membro do Comité Central do PCP Alfredo Caldeira e, naturalmente, Bento Gonçalves, o operário que foi secretário-geral do PCP.
A primeira leva de prisioneiros chegou a 29 de Outubro de 1936 àquele campo de concentração, "instalado numa zona sem água potável, flagelada por ventos fortes e por calor intenso, com pântanos donde irrompiam milhões de mosquitos e, com eles, o paludismo", onde os prisioneiros eram "submetidos às mais cruéis e sádicas condições prisionais - água inquinada, falta de medicamentos, ausência de assistência médica, péssima alimentação, trabalhos forçados, castigos bárbaros, brutalidade dos carcereiros". Encerrado em 1954, quando de lá saiu o comunista Francisco Miguel, seria reaberto, em 1962, para encarcerar os membros dos movimentos de libertação das colónias, incluindo o escritor angolano Luandino Vieira.
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