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A importância dos factos

por

Pedro Lomba

pedro.lomba@clix.pt  

No último congresso do Partido Conservador inglês, em Bournemouth, o novo líder dos tories, David Cameron, situou explicitamente a sua ideologia e as políticas que propõe no conservadorismo liberal. Os puristas, sobretudo em Portugal, talvez se tenham escandalizado. Como é possível ser conservador, prezar a autoridade, desconfiar da mudança e, ao mesmo tempo, acreditar nas virtudes do liberalismo, que impõe limites ao poder e aposta tudo na autonomia? E como é possível defender a liberdade individual, a pluralidade de escolhas morais, o recuo do Estado e aderir depois a valores conservadores, tantas vezes em contradição?

A resposta é afirmativa: podemos ser liberais e conservadores. É assim que as pessoas funcionam. Têm ideias diferentes sobre assuntos diferentes. Somos optimistas e pessimistas, individualistas e comunitaristas. E há toda uma tradição intelectual em torno destes valores conflituantes: mudança e estabilidade, autonomia e responsabilidade, diversidade e ordem. Por isso, num discurso inspirado, Cameron falou em liberdade pessoal, em combate ao crime, em iniciativa privada, mas também de coisas como "responsabilidade social", "economia estável", "vontade colectiva", "escola pública", "serviço nacional de saúde", "trabalho", "ambiente".

Causas destas são improváveis nos partidos do centro-direita. Em Portugal dir-se-ia que são de esquerda. Mas a pergunta óbvia é: porque não? Porque é que as pessoas e os partidos do centro-direita não hão-de tentar ser representativos da sociedade onde vivem? Porque é que não hão-de pensar na inevitável diversidade cultural destes tempos, defender o ambiente, o ensino público, os serviços públicos como o serviço nacional de saúde, o associativismo, o trabalho, um novo discurso social virado para a mobilidade social (e não para o assistencialismo estatista), a ética política ? Não, estas não são políticas de esquerda; estes são problemas e preocupações das sociedades que queremos compreender e governar. É assim tão difícil aceitar que os conservadores e liberais também precisam de um discurso para eles?


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