por
Carlos Almeida Andrade
Economista-chefe do BES
Nas suas previsões mais recentes, o FMI mostrou-se optimista quanto à evolução da economia mundial no próximo ano, esperando um crescimento global do PIB em torno de 4,9%, após um registo de 5,1% em 2006. As previsões do Fundo assentam, sobretudo, na expectativa de manutenção de um crescimento forte das economias emergentes (ligeiramente acima de 7%), em particular na Ásia (em torno de 8,6%).
A definição de economia "emergente" não é muito exacta. Ela surgiu no início dos anos 80, pela mão do Banco Mundial, para descrever economias com um rendimento per capita médio ou baixo e que se encontravam num processo de transição entre estados de desenvolvimento, sobretudo através de reformas nas suas políticas económicas ou nas suas instituições. Desde então, aquele termo tem sido utilizado, sobretudo, para designar economias asiáticas (como a China ou a Índia), economias da Europa Central e do Leste (como a Polónia, a Turquia ou a Rússia) ou economias da América Latina (como o Brasil, o México e a Argentina).
A dificuldade em definir exactamente o que é uma economia emergente (no sentido original do termo) tem aumentado nos últimos anos, em função da sua influência crescente na economia mundial. As economias emergentes representam já um pouco mais de 50% do PIB mundial (o que acontece pela primeira vez) e a sua influência tem sido determinante em alguns dos principais desenvolvimentos económicos recentes. Por exemplo, a integração da Ásia emergente no comércio mundial terá quase duplicado a oferta de mão-de-obra a nível global, pressionando em baixa os salários e os preços dos bens e serviços transaccionáveis nas economias desenvolvidas.
Com uma inflação controlada, foi possível aos Bancos Centrais na Europa e nos Estados Unidos manter taxas de juro em níveis historicamente baixos, o que, por sua vez, determinou uma forte valorização de diversas classes de activos, com destaque para a habitação (casos de Espanha, França, Irlanda e Estados Unidos). A um outro nível, a política cambial seguida pelas principais economias da Ásia emergente, mantendo as respectivas divisas artificialmente depreciadas, contribuiu para a criação de fortes excedentes das respectivas balanças correntes e para uma acumulação significativa de reservas externas (cerca de 70% das reservas externas totais).
Com estes meios, as economias emergentes tornaram-se, num facto também inédito, financiadoras do consumo e do investimento nas economias desenvolvidas (quando, tradicionalmente, os fluxos de capitais corriam em sentido inverso). Finalmente, o forte crescimento das economias emergentes fez-se sentir numa subida significativa da procura e dos preços das matérias-primas nos últimos anos (em particular nos metais e na energia, com o petróleo a atingir um preço recorde em termos nominais este ano). Em suma, algumas das chamadas "economias emergentes" determinam já hoje, em grande medida, a evolução da economia mundial como um todo. É necessário que as "economias desenvolvidas" se adaptem rapidamente a esta nova realidade.
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