por
Ângela Marques
e Eduardo Peres
O enforcamento perfeito está descrito na Internet. O melhor caminho para a overdose ou o veneno ideal para uma morte rápida também. Sem regulação nem controlo, há actualmente 900 a 20 mil sites apostados em ensinar e incitar ao suicídio. Só no Reino Unido há registo de 16 mortes anunciadas em sites pró-suicídio e salas de conversação. Portugal já se estreou: em 2005, um jovem criou um blogue, avisou os leitores da sua intenção e matou-se.
Para piorar o cenário, a taxa de suicídios em Portugal duplicou nos últimos anos. Segundo Marta Roque, médica de Psiquiatria dos Hospitais da Universidade de Coimbra - e oradora nas sextas jornadas sobre Comportamentos Suicidários, que terminam hoje no Luso -, "é difícil estabelecer correlações entre os sites e o suicídio, porque há poucos estudos e os casos descritos na literatura científica foram muito mediatizados", mas é urgente "um consenso internacional" para a regulação dos sites.
"Falta consenso para regular o acesso a sites suicidas, alguns com autênticas bizarrias a incitar ao suicídio", afirma. "E também os clínicos devem estar alerta para o uso que os seus doentes para-suicidários [que tentaram o suicídio] fazem da Internet." É que "essas páginas podem encorajar pessoas que já não estejam saudáveis ou até as que nunca tinham pensado nisso", acrescenta.
Nos blogues portugueses, "há muita discussão sobre o suicídio, a propósito de casos concretos", afirma Olga Ordaz, investigadora da Escola Superior de Enfermagem de Calouste Gulbenkian. "O caso do jovem que criou um blogue e se suicidou três dias depois foi muito comentado por outros bloggers", exemplifica. "Habitualmente, os utilizadores da internet comentam se este é um acto de coragem ou de cobardia, falam na vontade que já tiveram de se suicidar e contam experiências." Mas "não há um incitamento expresso ao suicídio", garante. Com uma excepção: "A Wikipédia explica como se faz." (Ver caixa.)
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