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O triunfo das teorias da conspiração

por

Vicente Jorge Silva

Jornalista  

Segundo o respeitável The New York Times, um relatório confidencial dos 16 serviços secretos dos Estados Unidos, produzido ao longo dos últimos dois anos, conclui que a invasão do Iraque provocou um alastramento do fundamentalismo islâmico, do terrorismo internacional e das ameaças à segurança interna da América. Há duas ou três coisas verdadeiramente extraordinárias nessa conclusão.

A primeira é que uma rede tão extensa de entidades secretas levou dois anos a diagnosticar o que um qualquer observador sensato e não padecendo de cegueira ideológica aguda já se apercebera há, pelo menos, dois anos atrás. A segunda é o contraste demasiado flagrante entre a conclusão dos 16 serviços secretos e a doutrina oficial vigente na Casa Branca, o que suscita infinitas perplexidades sobre como é possível que o eixo principal da política externa dos Estados Unidos assente num equívoco de tal magnitude sem precedentes. Daí decorre uma terceira coisa extraordinária: se a comunidade dos serviços secretos conclui exactamente o contrário do que é defendido pela Administração da única superpotência planetária, esse divórcio ameaça conduzir a uma situação catastrófica de descrédito e erosão global da autoridade americana.

Face a tudo isto, é possível colocar hipóteses mais ou menos loucas: admitir, por exemplo, que os serviços secretos -16, ainda por cima - não servem rigorosamente para nada, ou que a política de segurança e hegemonia imperial americana pode prescindir, contra toda a evidência, das actividades, informações ou diagnósticos desses serviços - e fazer o oposto do que eles concluem. A partir daqui, a Casa Branca domesticaria radicalmente a CIA e demais agências, transformando-as em meros apêndices propagandísticos da sua política e mergulhando-as no mesmo autismo suicidário que levou a KGB a não pressentir a implosão do império soviético. Resta um cenário alternativo, à medida das célebres teorias da conspiração: os serviços secretos aparecem como uma espécie de quinta coluna ou inimigo interno, apostados em derrubar o poder político legítimo (como já se viu, aliás, em tantas ficções cinematográficas e televisivas).

As especulações delirantes fazem parte do imaginário americano, como são as de um recente e muito impressionante documentário "conspirativo" sobre o 11 de Setembro: Loose Change, de Dylan Avery, exibido há dias na 2 Mas, para já, a Casa Branca encarregou-se de desvalorizar o relatório dos serviços secretos ou a forma "tendenciosa" e "truncada" como foi publicitado pelo The New York Times. Depois, é sempre possível atribuir subrepticiamente às secretas a velha responsabilidade por grosseiros erros de análise e falta de perspectiva política (invocando até as falhas clamorosas que a CIA e outras agências evidenciaram antes e depois do 11 de Setembro).

Só que, desta vez, as costas largas das secretas já não parecem ser tão largas como eram para carregar sobre elas o aventureirismo missionário da Administração Bush. Em todo o caso, se o conjunto dos serviços de informações subscreve em peso um relatório que põe radicalmente em xeque a intervenção no Iraque - considerando-a responsável pela expansão do terrorismo -, isso não pode deixar de provocar um curto-circuito mortífero na credibilidade da Casa Branca. Quando os índices de confiança da população americana em George W. Bush caíram para níveis históricos a dois meses de eleições cruciais, esta revelação ameaça converter definitivamente Bush naquele pato coxo a que se referia, há tempos, The Economist.


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