por
Kátia Catulo
Leonardo Negrão (foto)
A inflação foi o único sinal de progresso que entrou na loja n.º 3 da Avenida da Liberdade, em Lisboa. Em 1975, uma ginjinha no Rubi custava 50 centavos; hoje, por cada cálice aviado atrás do balcão, paga-se um euro. "Tudo o resto está na mesma", garante Cândido Antunes, a trabalhar nesta casa há pouco mais de 30 anos. Desde as paredes salpicadas de gordura até à garrafeira exposta nas prateleiras de cima.
Não é o caso da Avenida da Liberdade, que perdeu o que de melhor teve nas últimas décadas: primeiro, os moradores, que foram morrendo e, mais tarde, os visitantes, que faziam fila para entrar no Parque Mayer ou no cinema São Jorge. A conversa, admite o empregado do Rubi, é de quem nunca entrou "numa dessas lojas chiques" da avenida.
Há quem venha de propósito gastar cheques e visas em malas de marca francesa, fatos de corte italiano ou calçado em pele certificada. Lucília Lupaço coordena quatro lojas "topo de gama" na Avenida na Liberdade - Timberland, Burberry, Furla e Betty Barclay - e garante que, se mais espaço tivesse, mais clientes teria: "É o melhor sítio para se ter um negócio direccionado às classes com elevado poder de compra."
Podem vir ciclos de cintos apertados que a crise mantém-se sempre distante das montras da Louis Vitton, Ermenegildo Zegna, Donaldson e outras casas de requinte na avenida: "As recessões económicas vêm e vão sem nunca afectarem os clientes que frequentam as nossas casas", diz Lucília. Com a mesma facilidade que compram uma bota amarela da Timberland por 180 euros, levam para casa uma mala da Burberry por dez vezes mais.
Mas, no cimo da Avenida da Liberdade, há dias em que Cândido Antunes nem espera pelo anoitecer para fechar o Rubi: "Durante o dia ainda entram algumas pessoas que estão de passagem mas, depois das 19.00, quase ninguém passa por aqui." Nada que se pareça com as noites de teatro do Tivoli ou da revista do Parque Mayer, "há uma boa dúzia de anos".
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