por
Professor universitário
Diogo Pires Aurélio
Raro é o mês em que não chegam novidades do Google. Ora é o anúncio de um novo serviço, como foi a recente colocação em linha de jornais dos últimos 200 anos. Ora é um novo acordo com bibliotecas, possibilitando o acesso universal a mais alguns milhões de obras. Ora é a disponibilização de uma edição que por algum motivo nos toca mais de perto, como foi, há umas semanas, o aparecimento na rede de uma edição d´Os Lusíadas. No meio de tanta coisa que correu mal nos últimos cinco anos, o desenvolvimento acelerado que teve o mais conhecido motor de busca representa, sem sombra de dúvida nem exagero retórico, uma bênção para os investigadores e um acontecimento feliz para toda a gente.
Quem ainda se lembra do tempo em que, para se fazer a mais elementar pesquisa, era necessário uma deslocação ao estrangeiro, de onde se voltava, passados meses, com a mala cheia de fotocópias e alguns caixotes de fichas, reconhecerá certamente que o mundo, com o Google, já não é o mesmo. Até a busca de informação útil, durante tanto tempo ajudada quase só pelas "páginas amarelas", está agora infinitamente facilitada, podendo o vulgar cidadão localizar em segundos instituições e pessoas que, de comum entre si, têm apenas o "habitar" a imensidão do Google. E há notícia de que outras empresas concorrentes, embora sem êxito por enquanto, estão a tentar destroná-lo, o que quer dizer que a velocidade a que têm surgido novos serviços continuará a aumentar.
Uma tal benesse apresenta, contudo, aos olhos de muita gente, dois imperdoáveis defeitos: não depende de nenhum Estado e, ainda por cima, foi criada e tem sido comercialmente explorada por americanos. Bastou isso para que, ainda há dois anos atrás, o Presidente Chirac aí visse uma oportunidade para desencadear uma cruzada que pôs uma data de boas cabeças a delirar, para já não falar da legião de figurantes sempre disponíveis para semelhantes causas: a Europa tinha de se dotar também do seu "motor de busca", a fim de combater quer o predomínio avassalador da língua inglesa quer a ideologia liberal que o Google, por seguir tão-somente as regras de mercado e ir seriando as informações consoante o respectivo número de consultas, estaria a inocular nas mentes dos pobres investigadores e demais utentes. Felizmente para todos, há certos delírios que não basta querer para que eles se tornem realidade.
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