por
Manuel Esteves
e Sérgio Aníbal
Em Portugal poucos acreditam na possibilidade de se enriquecer à custa do trabalho. A maioria dos pobres portugueses aposta mais na hipótese de ficar rico com o Euromilhões do que com o seu trabalho. É o "sonho do Euromilhões". Mas não é assim nos Estados Unidos, onde o sonho é outro. É "americano" e assenta na ideia de que qualquer um, independentemente dos seus rendimentos, possa, a partir do seu trabalho árduo e competente, tornar-se rico.
Esta crença está mais viva do que nunca no coração dos norte-americanos (ver gráfico da esquerda) e, entre 26 países, só nas Filipinas se sente maior fervor, revela uma sondagem publicada pelo New York Times. Porém, nunca como hoje, este sonho esteve tão comprovadamente desfasado da realidade. Diversos estudos, vindos à estampa recentemente (reflectidos na revista Economist), demonstram que os rendimentos dos pais determinam de forma significativa os rendimentos futuros dos filhos e que os Estados Unidos são o país (juntamente com o Reino Unido) onde é mais difícil um pobre libertar-se da sua condição. Ou seja, é um sonho que não passa disso mesmo e que fenómenos cíclicos, como o Katrina há um ano, transformam em pesadelo.
Diz-me o rendimento
dos teus pais, que direi o teu
Todos os pais procuram garantir da melhor forma o futuro dos seus filhos e muitos já terão constatado como a sua condição socioeconómica condiciona por vezes o futuro dos seus filhos. À partida, uma sociedade idealmente justa asseguraria igualdade de oportunidade a todos. É isso mesmo que prediz o sonho americano e, de resto, a própria Constituição Portuguesa. Ou seja, à nascença todos teríamos a mesma possibilidade de, na idade adulta, sermos ricos ou pobres. Dito de outro modo, se tudo fosse assim, qual seria a possibilidade de uma criança que esteja entre as 20% mais pobres de um país continuar na mesma situação económica na idade adulta? Seria precisamente de 20%.
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