por
Elsa Costa e Silva
O anúncio de que cientistas norte-americanos conseguiram desenvolver linhas de células estaminais embrionárias sem destruição do embrião foi acolhida entre prudência e entusiasmo. O facto de abrir caminho à investigação "ética" em células embrionárias é visto como um avanço notável na área. Mas, para além de haver ainda dúvidas com a técnica, o meio de cultura usado pela equipa da empresa privada Advanced Cell inviabiliza a aplicação destas linhas celulares na clínica.
A investigação, divulgada pela revista Nature, conseguiu desenvolver em cultura células estaminais retiradas de embriões excedentários, resultantes de fertilização in vitro, usando técnicas semelhantes à usada no diagnóstico pré-implantatório (para despiste de doenças genéticas). A equipa usou 16 embriões, dos quais retirou uma célula. De um conjunto de 91 células, colocadas em conjunto no mesmo meio de cultura, originaram duas linhas celulares que sobrevivem há oito meses.
Várias equipas em todo o mundo procuram há muito conseguir obter este resultado, por ser a resposta a muitos problemas éticos que levaram, inclusive, o presidente norte-americano a recusar a atribuição fundos estatais para estas investigações. Robert Lanza, coordenador do grupo norte-americano da Advanced Cell, espera ainda melhorar a taxa de sucesso na obtenção de linhas celulares, melhorando o meio de cultura.
Contudo, este é exactamente um dos problemas que se levanta quando é considerada a hipótese de usar estas linhas celulares para fins terapêuticos em humanos. É que esta equipa usou as monocamadas (feeder layers), feitas de células e soro animal, que contaminam as células cultivadas. Mário Sousa, investigador da Universidade do Porto e especialista em células estaminais - que considera este um "avanço notável" a precisar ainda, contudo, de mais explicações - assinala que esta técnica é proibida em "aplicações médicas".
Também Rui Reis, presidente da Sociedade Portuguesa de Células Estaminais e Terapia Celular, aponta o "cuidado" com que deve ser olhada esta experiência, porque são "situações cada vez mais difíceis de replicar por outros laboratórios". Este investigador salienta, no entanto, que este trabalho vem "resolver um dos principais problemas éticos e caem assim por terra os argumentos contra a investigação em células estaminais embrionárias, porque mantém a integridade do embrião".
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